Pandemia do medo

Meraldo Zisman

Quando uma epidemia se espalha globalmente passa a ser chamada de pandemia. No século passado aconteceram várias pandemias. A da gripe espanhola, insidiosa, em 1918, matou mais de 50 milhões de pessoas. Em questão de um ano, eliminou mais vidas que toda a Primeira Guerra Mundial.

Na ocasião, ninguém sabia nem o que era um vírus, quanto mais como combatê-lo. Estimativas indicam que 500 milhões de pessoas chegaram a ser infectadas pela gripe espanhola. Um quarto de toda a população mundial da época. Em 1957 e 1968, a gripe H1N1 foi marcante. Outros exemplos incluem a peste bubônica (a peste-negra), no século XIV, o vírus da síndrome respiratória aguda grave (Sars) em 2003 e o HIV/Aids, para mencionar as mais atemorizantes. A Aids, por exemplo, começou na África Ocidental, onde foi epidêmica por décadas, e tornou-se uma pandemia no fim do século XX. Porém, passadas duas décadas do século XXI, é admissível dizer que o HIV agora é endêmico em algumas partes do mundo.

São múltiplos os fatores que influenciam a extensão de uma condição para que se torne pandêmica.

Duas das maiores causas da disseminação são a rapidez com que o agente se torna infectante de uma pessoa para a outra e a mobilidade das viagens aéreas. Os países desenvolvidos têm verdadeiro pânico do alastramento de determinados surtos epidêmicos que normalmente têm origem nos países mais pobres. Bactérias, fungos, vírus, helmintos e rickettsias não respeitam fronteiras. Não são portadores de vistos nem passaportes. Todas as medidas de isolamento ou confinamento funcionam na lógica humana, que é diferente da lógica dos micro-organismos. Eles sabem que, se matarem o hospedeiro, morrem com ele e vão então se tornando menos agressivos com o passar do tempo, para sobreviver. O fato é que, olhando a intensidade dos meios de comunicação, assisto pasmo à difusão eletrônica do pânico, desta vez em rede e em todos os meios possíveis da mídia.

 

Para muitos cientistas, o mundo viverá sempre o perigo de uma epidemia global. E ela pode começar a qualquer momento, daí o temor.

Todas as grandes epidemias começam assim. Não é difícil entender o porquê. Se um vírus está confinado em animais, ele não tem contato com seres humanos. Isso significa que os humanos não desenvolvem qualquer adaptação a ele. Quando o vírus sai dos bichos e vem até nós, estamos despreparados para reagir. Nosso organismo não consegue combatê-lo com a força necessária ou então o infectante age de forma brutal demais, de início.

Talvez nos lembremos agora dos índios que morreram de sarampo e tuberculose trazida pelos brancos nos tempos das caravelas? E não venha me dizer que as zoonoses (lembro: são doenças infecciosas capazes de ser naturalmente transmitidas entre animais e seres humanos) estão por trás das principais ameaças que servem de propaganda para os ambientalistas.

 

A realidade do século XXI é muito mais dura. Apesar de se criar todas as armas possíveis para se prevenir contra as próximas epidemias saberemos que, cedo ou tarde, elas virão.

De uma coisa tenho certeza: o sonho ingênuo de acabar com as infecções estão perigando. Todos sabemos disso. Todavia, propalar o pânico generalizado é muita crueldade.

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