Pandemia: a culpa, claro, é dos outros

Márcio Almeida Jr.

O bom senso diz que há um limite a partir do qual não faz sentido culpar os pais por tudo o que nos acontece. É o limite da maturidade, aquele ponto da vida em que nos reconhecemos sujeitos de nossas escolhas e, pelo menos, corresponsáveis pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Depois de atingido esse ponto, constitui uma espécie de esperteza vitimista tentar atribuir a quem quer que seja a responsabilidade integral pelo que nos ocorre, pois, tendo atingido a capacidade de entendimento, não podemos mais nos desculpar apresentando-nos como marionetes manipuladas pelas mãos de outros. Esse limite já chegou para a população do Brasil, inclusive a de Divinópolis, no que diz respeito à avaliação do papel do governo no combate à pandemia de covid-19.

É verdade que o atual governo municipal se deixou impressionar algumas vezes pelo bolsonarismo de um ruidoso grupo divinopolitano que, sem considerar aspectos científicos de saúde pública, queria portas abertas a todo custo sob a alegação, não comprovada, de que toda a culpa pelo descontrole pandêmico era das “festas”. Também é verdade que esse governo tem um secretário de Saúde que demorou a vir a público e apontar sem meias palavras a gravidade da pandemia no município, além de ter cruzado os braços para o não comprovado “tratamento precoce” da covid-19, prescrito em consultório por fãs do “Mito” que, mais de 30 anos depois da queda do Muro de Berlim, ainda temem que seus condomínios sejam invadidos pelo “perigo vermelho” vindo da China.

Contudo, nada disso, nem a evidente falta de colaboração dos estabelecimentos que mantêm portas indevidamente abertas, nem uma empresa de transporte coletivo que de modo surreal reduz a quantidade de ônibus durante a pandemia e assim amplia a sua lotação quando deveria reduzi-la, nem, ainda, os grupos de WhatsApp em que convertidos da cloroquina e devotos da ivermectina estimulam a desobediência às regras de restrição da circulação, nada disso, repitamos, justifica o que está se passando com uma parte da sociedade divinopolitana em termos de comportamento social durante este momento grave. Negacionismo irresponsável é uma expressão adequada para designar esse comportamento.

Há negação irresponsável da verdade quando se ignora a realidade estatística como se ela não existisse. Isso é feito no melhor estilo da pós-verdade, este período fértil em teorias da conspiração, no qual despontam Olavo de Carvalho, o guru sagrado do governo, Ernesto Araújo, Damares Alves e outras criaturas exóticas que integram a fauna desse fanatismo tupiniquim que primeiro transformou o Brasil em motivo de piada e agora o faz um pária digno de dó no cenário internacional. Os números dos boletins oficiais da pandemia – para quem não se recusa a vê-los – mostram o tamanho da irresponsabilidade. O que eles indicam é um comportamento que segue, firme e forte, na contramão da saúde pública, da ciência e do elementar senso de realidade.

A melhor maneira de quantificar o delírio coletivo divinopolitano talvez seja a que compara alguns dos mais importantes índices epidemiológicos municipais ao longo deste início de 2021. Em 20 de janeiro, o RT (Ritmo de Transmissão) da pandemia no município era de 1,11%, enquanto a taxa de ocupação de CTIs era de 56,4%. A taxa de isolamento social, medida por metodologia que inclui a determinação da posição de aparelhos celulares a partir de satélite, era então de 36%. Ou seja: pouco mais de um terço da população divinopolitana estava então tentando efetivamente se isolar. Na última segunda-feira, 22 de março, dois meses depois, o RT pulou a 1,43%, enquanto a ocupação de CTIs foi catapultada a 93%. E a taxa de isolamento? Caiu a 31%.

A conclusão impõe-se por si mesma: quanto mais grave fica a situação da pandemia em Divinópolis – situação que obviamente tende ao colapso completo nas próximas semanas –, tanto mais se abandona o confinamento no município. E tudo parece se dar no melhor estilo do Messias de Brasília, que propõe mais armas aos cidadãos, mas não consegue lhes ofertar vacinas em prazo hábil. (Estamos no 60º lugar mundial em percentual de vacinados relativamente ao contingente populacional, atrás, inclusive, dos latino-americanos do Chile e do Uruguai, mas o bolsonarista divinopolitano que habita a bolha do WhatsApp prefere a conta mais confortável que leva em conta a quantidade absoluta de vacinados e nos põe em um maquiado 5º lugar no ranking.)

Já não pode ser excluída a possibilidade de que pessoas em Divinópolis, a exemplo do que ocorre em outros locais do Brasil, comecem a morrer de covid-19 à espera de vaga e atendimento, no que configura o mais constrangedor estado de miséria moral a que um sistema de saúde pode ser rebaixado. Mas a turma do WhatsApp não se incomoda. Prefere conviver e aplaudir seu líder, que ameaça ir à Justiça contra governadores que tentam limitar a circulação de pessoas com medidas drásticas. Quando o colapso se instalar, a culpa por certo será de Lula (culpado de tudo que ocorre de ruim no Brasil desde 1500), será do STF (esse “bando de corruptos” que não deixam o presidente governar) ou será simplesmente do prefeito, cuja política de enfrentamento da pandemia rompeu com o bolsonarismo ao se tornar mais rígida.

E vamos para a rua, com o patriotismo acima de tudo e o negacionismo acima de todos.

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