Palavra proibida

Inocêncio Nóbrega

Duas magnas datas para os militares, 1º de abril, quando eles assumiram o poder, em 1964, e 13 de dezembro de 1968, edição do AI-5. Pois o presidente Bolsonaro (sem partido) proibiu a Empresa Brasil de Comunicação usar os termos “golpe” e “ditadura”, quando se referir a essas efemérides. Devem ser sistematicamente substituídas por “regime militar” ou “comemoração do evento”. No seu entender, são palavras mais escondidas, isto é, menos duras. Trocando em miúdo, trata-se de uma recomendação que se assemelha àquele ato de um determinado executivo brasileiro, o qual sem êxito no combate a uma epidemia de gripe, que grassou na sua região, decidiu extirpá-la por decreto.

Não tardaram protestos dos empregados e sindicatos de jornalistas e radialistas, do Rio, S. Paulo e Brasília. Traduziram-na como censura ao desempenho profissional nessa área, incluído a TV. Neste mês, parlamentares do PT, PDT, PSol e PCdoB encaminharam à ONU documento denunciando a prática de “cerceamento prévio à liberdade de expressão”.

Para quem assistiu ou leu passagens da história, ligadas aos governos da República, desde Getúlio Vargas aos nossos dias, acha-se bastante familiarizada com esse tipo de rompimento constitucional à democracia. A população brasileira, portanto, está conscientizada quanto aos acontecimentos desenrolados a partir da deposição de João Goulart e Dilma Rousseff (PT). Porém, há outros os quais tumultuaram a vida pública nacional. Jamais a UDN, que detinha igual doutrina dos partidos da direita, aceitou sua derrota nas eleições que elevaram Eurico Dutra ao Catete. Conspiração passou a ser comum nos bastidores da política e das casernas.  Ela se acirrou com a vitória da chapa JK-Jango, em 1955, isto é, PSD-PTB. Carlos Luz, no exercício da Presidência, em virtude da grave enfermidade do titular, Café Filho, costurava uma reação à posse de Juscelino, sendo frustrada, dado o espírito legalista do ministro Teixeira Lott que, com aval do Congresso Nacional, fez de Nereu Ramos seu sucessor.

 Golpe é a viva cultura latino-americana; em vão evitar comentá-lo. Insatisfeitos com o candidato eleito, adversários prometiam tolher sua posse, nem que seja no tapa.  Oficiais da Aeronáutica preferiram as armas. Em fevereiro de 1956, organizam um levante, tomando a base militar de Jacareacanga, no Pará. Posteriormente, dezembro de 1959, a Revolta de Aragarças, com idêntico objetivo. Sem baixar a guarda, Juscelino cumpriu todo seu mandato. A tecnologia avançou, nesse aspecto. Hoje, de atores os militares passaram a ser coadjuvantes. A arma, lawfare, busca-se no Quartel General da Justiça, e munição, fake news, nas unidades do parlamento federal e do Planalto. Menos letal, traz mesmo resultado.

Jornalista

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