Pague sem reclamar

 

Pague sem reclamar - Coluna Carlos Brickmann

O problema do eleitor brasileiro é que se divide entre cobrar os excessivos gastos do Congresso, ou do Supremo, ou do Executivo. De vez em quando aparece alguma conta exagerada demais: as picanhas de R$ 1.700,00 o quilo, do presidente da República, a multiplicação por três dos gastos eleitorais do Senado e da Câmara, a concorrência do STF para banquetes com camarões, lagostas e vinhos com pelo menos quatro prêmios internacionais. O fato é que normalmente Suas Excelências gastam demais o nosso dinheiro. Não é só a picanha de alto luxo: é espantosa a tranquilidade com que o Executivo paga aos fardados quantias superiores ao teto constitucional, o Supremo admite funcionários encarregados de vestir a toga nos ministros e puxar-lhes a cadeira, os parlamentares se entopem de assessores bem pagos – muitos dos quais têm como maior mérito dividir o salário em rachadinhas com os parlamentares que os contratam.

É uma festa com dinheiro público. E ninguém entende por que é preciso limitar a Bolsa Família – não sem antes gastar um dinheirão para trocar o nome do programa assistencialista. Afinal, a propaganda é a alma do negócio. E a população mais pobre que se vire: pé de frango vira sua grande fonte de proteína animal.

O curioso é que o Imposto Ipiranga, Paulo Guedes, foi aluno de Milton Friedman, economista liberal que criou o Imposto de Renda Negativo. Guedes, se quiser, faz. Estudou bem o tema. Mas prefere louvar Bolsonaro.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, tem 120 pedidos de impeachment de Bolsonaro para avaliar. No Senado, o presidente Rodrigo Pacheco deixou por dois meses de avaliar os pedidos para instaurar uma CPI da Covid, na qual os senadores estudariam eventuais falhas cometidas pelo Governo. Só agiu por ordem do Supremo.

Mas multiplicar por três as verbas destinadas à campanha eleitoral foi uma medida que saiu rapidamente. Campanha boa é aquela em que verbas abundam.

Todos ganham, todos ficam felizes, menos os eleitores e o Tesouro.

Ainda se lembra do general Pazuello (“aqui um manda e outro obedece”), o que confundiu o Amazonas com o Amapá? Isso: aquele que o presidente Bolsonaro costuma chamar de “meu gordinho”. Pazuello acaba de ganhar novo posto: deixou a Secretaria de Assuntos Estratégicos e foi nomeado pelo ministro Ciro Nogueira para a Assessoria Especial da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Especialíssimo, pois. Seu cargo anterior, secretário especial de Assuntos Estratégicos, foi extinto.

Mas ele garantiu uma boa colocação. Quem tem padrinho não morre pagão.

O presidente Bolsonaro, hoje sem partido, está no momento escolhendo entre duas opções, ambas do Centrão: o PP, do ministro Ciro Nogueira, e o PTB de Valdemar Costa Neto. Não há ideologia nas escolhas: Bolsonaro deve escolher o partido que lhe dê o controle da legenda. Desistiu do PSL, pelo qual se elegeu e que transformou num grande partido, o segundo do país, porque Luciano Bivar fez questão do controle da sigla – incluídos os cofres.

Bivar encaminha agora a fusão do PFL com o DEM, no qual não há lugar para Bolsonaro & Filhos. A nova legenda pode até apoiar Bolsonaro, se lhe for conveniente, mas não vai aceitá-lo no partido, nem lhe dará o controle. PP e PTB são os favoritos para abrigar o presidente.

O ex-juiz Sergio Moro tem contrato até o fim do ano com uma empresa de advocacia dos EUA, e tudo indica que voltará ao Brasil. Pode sair candidato a presidente, ou ao Senado, sempre pelo Podemos, partido de Álvaro Dias. Mas só sai para presidente se achar que tem chance entre Lula e Bolsonaro. Não é o que as pesquisas apontam hoje. Mas há quem acredite que Moro vai ressuscitar a Lava Jato. Não vai, mas esperança sempre existe.

Moro talvez prefira se instalar nos EUA e não se candidatar a nada. Pode ser. Se for candidato, a tendência é que se transforme em alvo tanto de Lula quanto de Bolsonaro – uma experiência desagradável.

O repórter Luís Nassif acaba de lançar um livro, “O caso Veja”, com o objetivo de narrar a “ascensão e queda da imprensa brasileira”. Em sua opinião, a desorganização da informação, promovida pelo partidarismo que vê na imprensa, desestruturou todos os poderes. O livro de Nassif já está à venda na Amazon.

A seu ver, o bolsonarismo nasceu por volta de 2005, quando a imprensa descobriu o que chama de jornalismo de esgoto. Liderada por Veja, a imprensa resolveu seguir o exemplo de Rupert Murdoch e assumir o protagonismo político e o discurso de ódio. Aí teria acabado a imprensa como a conhecemos e vieram, em seu lugar, as fake news. Vale ler.

 

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