Onde começa a corrupção

Editorial 

Não é de hoje que povo tem a percepção que a corrupção é praticada apenas por políticos e que o país não vai para frente por causa dos ditos “representantes do povo”. Desde que o Brasil é Brasil, este ledo engano é cometido. Tem um ditado bem conhecido que diz: “o povo tem o político que merece”, e esta é a mais pura verdade. O Brasil tem o presidente, os deputados e senadores que merece, Divinópolis tem os políticos que merece, cada cidade e estado têm os representantes que fazem jus. O brasileiro ganhou o direito ao voto em 1989. Depois de longos 21 anos sem o direito de escolher os seus representantes e de passar por um período obscuro, o povo foi às urnas escolher nada menos do que o primeiro presidente do Brasil, pós-ditadura. A história está aí para mostrar que a escolha não foi das melhores. Dois anos após ser eleito o primeiro presidente do Brasil, Fernando Collor foi alvo de um pedido de impeachment e renunciou na esperança de não ter seus direitos políticos cassados. 

Acusado de envolvimento em escândalo por práticas de corrupção, Collor deixou a Presidência no dia 29 de dezembro de 1992. Apesar de terem se passado quase 20 anos do ocorrido, ela ainda assombra o país. Quem mergulhou na história do Brasil nessa época sabe da facilidade que os políticos têm em manipular os eleitores e sabe muito bem que a corrupção não começa em Brasília, ela começa nos próprios eleitores.

Começa naqueles que têm em suas mãos a responsabilidade de escolher os seus representantes. Quantas pessoas trocaram o seu voto em Collor por uma cesta básica, um saco de cimento, pagamento de contas e até viagens? O que mais estarrece é que, de lá para cá, pouca coisa mudou. Em pleno 2020, muita gente ainda faz esta troca ‒ e olha que não é nos rincões brasileiros, onde o povo passa fome, não, é na região Sudeste mesmo, incluindo Minas Gerais. Trocam qualquer coisa por um voto, esquecendo-se que isso vai refletir diretamente na saúde pública, na educação, na economia e na infraestrutura. 

E é justamente nesta troca que começa a corrupção. O mesmo povo que fala para o candidato “Eu voto em você, mas o que vai me dar em troca?”, é o mesmo que reclama de corrupção nas redes sociais. O mesmo eleitor que dá um jeitinho brasileiro nisso ou naquilo ou que fura uma fila, que não respeita o próximo, é que reclama das malandragens dos políticos. Collor foi eleito porque o povo se identificou com ele. Um chefe de Executivo só é eleito porque a maioria se identifica com ele, assim como deputados, senadores, prefeitos e vereadores.

Eles são escolhidos pelo povo, pela maioria. E, se o Brasil, se Minas Gerais e se Divinópolis estão do jeito que estão, talvez seja porque cada um tem o político que merece. Se está desse jeito é porque a hipocrisia reina, e o eleitor que reclama da corrupção, da saúde pública, do transporte público, das ruas esburacadas, da falta de recurso, de má gerência do dinheiro público é o mesmo que vende o seu voto e não imagina as consequências dessa atitude. Definitivamente, corrupção não começa nas cidades, nos estados e, muito menos em Brasília. 

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