O resgate

Leila Rodrigues 

Naquela manhã eu desejei alguma coisa diferente. O dia seria corrido como sempre e intenso como todos os outros. A previsão era de agenda cheia, reuniões e decisões difíceis. Porém a previsão do tempo estava boa, teríamos sol e calor intenso, o que a gente reclama mas gosta. Resolvi apostar que o dia seria bom. 

Naquele dia, faltaram pessoas e sobraram problemas. Faltou braço para tanta tarefa e sobraram itens que foram somados à extensa lista do dia seguinte. É a vida! 

Notícias difíceis de digerir, pessoas que se foram de repente, sem um abraço de despedida, medo e cautela por todos os lados... Mas o meu propósito era que o dia valesse a pena! Alguma coisa em mim insistia para que tudo valesse a pena! 

Entre uma tarefa e outra, ligo para os meus pais. Em tempos de pandemia, a preocupação aumenta, e saber que estão bem acalma meu coração. 

Então meu pai me conta feliz o que fez no almoço. Alguma coisa colhida da horta dele. Desta vez, abobrinha, feita de um jeito diferente. Meu pai e suas invenções gastronômicas. Posso sentir o cheiro do outro lado da linha. E minha mãe conta que vai passar o dia em oração por toda a família. A forma como falam, a sinceridade que emanam é tão grande que não tem como não me envolver! São coisas tão simples e tão grandiosas que mudam o rumo do meu dia. Ah, meu Deus, eu não mereço tanto amor assim! 

É nesse momento que eu percebo onde meu coração descansa. E repouso no colo deles, ainda que a quilômetros de distância.

É preciso enxergar o nosso lugar de descanso no meio das nossas tribulações. É preciso enxergar a roseira que floriu, a planta que brotou, o céu limpo, o cheiro da comida feita com amor, o bom dia sincero de alguém por trás da máscara, o amor genuíno de quem está do lado de lá. É preciso enxergar alguma coisa que nos fortaleça. Só assim passaremos por toda essa tormenta. É preciso descobrir um colo onde possamos repousar, ainda que seja na memória de alguém que não esteja mais aqui. 

O novo normal anuncia, a receita de viver tem ingredientes novos. A vida pede cuidado, precaução, isolamento e pinceladas de amor no meio de tudo isso! Se houver pessoas, ame essas pessoas. Se houver flores, ame essas flores. Se não houver nada disso, ame a história, a memória e as coisas simples que tornaram estas pessoas grandiosas. 

Naquele dia, fui salva por eles, meu pai e minha mãe. Resgatada para o que realmente vale a pena nesta vida! E o resto do meu fluiu em paz!

leila.palavras@gmail.com

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