O papa no Iraque

Raimundo Bechelaine

Através dos meios de comunicação, acompanhamos a histórica peregrinação papal ao Iraque. Toda a passagem de Francisco por aquele sofrido país foi marcada por sinalizações e gestos de transcendente significação. Pode até ser arbitrário realçar algum momento sobre os demais. Nem se pode esquecer que o pontífice desejava confirmar sua solicitude de pastor para com a heroica minoria cristã, em meio à maioria islâmica.

Mesmo assim, ousaremos dizer que a visita de Francisco a Ur, a bíblica cidade onde viveu Abraão, e o encontro com o grão aiatolá Al Sistani destacam-se. Os dois eventos têm forte sentido de aproximação inter-religiosa. O diálogo inter-religioso, ou seja, com religiões diferentes, foi reconhecido pelo Concílio Vaticano II e vem sendo praticado pela Igreja, desde então. 

A figura de Abraão está nas raizes comuns e mais profundas do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. Justamente por isso, os três credos são chamados de religiões abraâmicas. Seus livros sagrados referem-se ao remoto patriarca, à sua esposa Sara e a Isaque, o "filho da promessa". Seus crentes adoram a mesma divindade, o "Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó".

A visita de Francisco ao aiatolá Ali Al Sistani, em sua residência, é outro fato de evidente importância religiosa e também política, embora revestido de grande simplicidade. Sistani, nos seus noventa anos de idade, é reconhecido por sua autoridade moral, elevação espiritual e liderança popular e política. O encontro de dois representantes altamente qualificados, de tradições religiosas diferenciadas, que já viveram violentos conflitos históricos, oferece um eloquente testemunho de espírito de autocrítica e diálogo. Homens tão diferentes e distanciados tornam-se capazes de se falar e de se ouvir. 

 Isto nos faz lembrar, obviamente, que a Campanha da Fraternidade Ecumênica convida os cristãos a cultivarem, no seu próprio campo, o espírito evangélico de aproximação e respeito mútuo. Ecumenismo é o diálogo entre as Igrejas que se professam cristãs. O lema deste ano está em Efésios 2, 14: "Cristo é nossa paz, do que era dividido fez uma unidade". É a iluminação bíblica do tema: "Fraternidade e diálogo, compromisso de amor".

Revendo a história da humanidade, vê-se que as religiões têm um papel relevante e, às vezes, positivo. Por outro lado, têm sido semeadoras de superstições, fundamentalismos, devocionismos alienantes, preconceitos, ódio, perseguições e até guerras. Não foi sem razão que as sociedades modernas atenderam aos apelos do iluminismo e reduziram o espaço da influência religiosa, tomando o caminho da laicidade. 

Terá chegado o tempo em que as grandes correntes religiosas serão criadoras de uma espiritualidade de entendimento, de compromisso com uma paz sem exclusões, construída sobre a justiça? Não é isto que todos os povos almejam? Então esta é a missão insubstituível. jorababech@gmail.com



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