O outro alferes

Os brasileiros bem sabem do alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746 - 1792), conhecido como o Tiradentes. Foi o primeiro herói nacional a ter seu nome inserido no Panteão da Pátria, em 1989. O que muitos brasileiros talvez não saibam é de outro alferes, que também atuou bravamente junto dos conjurados no movimento de Vila Rica.

Trata-se do negro – importante ressaltar – Vitoriano Gonçalves Veloso, o qual também pertenceu à cavalaria mineira como alferes, assim como Tiradentes, porém com mais habilidades no cavalo, tanto que era o principal mensageiro dos inconfidentes.

Vitoriano Veloso era filho de mãe escrava com pai branco, nascido em 1738 num lugarejo conhecido por Gruta do Ouro que depois – por vícios da fala – virou Gritadouro e depois virou Gritador, mas hoje guarda seu nome, Vitoriano Veloso-MG, distrito de Prados-MG.

Depois de ser alfaiate – ora, Tiradentes arrancava caninos – foi feito alferes dos pardos da Comarca do Rio das Mortes e, ao se juntar ao movimento rebelde, foi posto como mensageiro de confiança dos conjurados. Era um sujeito destemido o tal galopeiro da Inconfidência.

A presteza do alferes Vitoriano – subtenente –, eis que conhecia bem a estrada real, assim como sua devoção aos pedidos de mensagem, ficaram evidenciados por pesquisadores ao concluírem que ele teria percorrido cerca de 240 quilômetros em três dias e duas noites em montaria, depois de 10 de maio de 1789, avisando aos conjurados encontrados – entre Prados e Vila Rica – das prisões ocorridas no Rio de Janeiro envolvendo Silvério dos Reis e Tiradentes.

Quando o alferes Vitoriano foi preso é que realmente foi possível constatar a rapidez de suas cavalgadas. Lá, nos autos da Devassa – processo – foi ouvido oito vezes. A sétima vez foi em 22 de janeiro de 1790. Mantido preso, a oitava vez aconteceu no ano seguinte e, somente um ano e três meses depois (1792), tomou conhecimento de sua sentença: degredo perpétuo para Moçambique, África.

Tiradentes já havia sido enforcado no dia 21 de abril de 1792. No dia 16 de maio do mesmo ano, Vitoriano Veloso foi torturado mediante açoite como pena adicional por ser negro. Foi chibatado enquanto dava três voltas aos pés da mesma forca que havia matado o mártir da Inconfidência.

Depois do flagelo, e para cumprir sua pena principal em Moçambique, embarcou no dia 22 de maio daquele ano, juntamente com Tomás Antonio Gonzaga e outros condenados. Embarcou para não mais voltar. Morreu no degredo, mas restaram seus despojos que encontram-se no Panteão do Museu da Inconfidência, Ouro Preto/MG.

Vitoriano foi o único negro do movimento separatista e o único a receber chibatadas pelo caminho, até chegar ao patíbulo, pelo “horroroso crime de alta traição, com a mais escandalosa temeridade” contra a Coroa. Depois de Tiradentes, foi o mais castigado.

Enquanto o alferes Tiradentes deu nome à famosa cidade mineira, o alferes Vitoriano Veloso deu nome ao simples povoado onde nasceu, hoje distrito, que já pertenceu à cidade de Tiradentes-MG, mas hoje pertence a Prados-MG, e mais conhecido por “Bichinho”, apelido famoso e que ofusca o nome do seu valoroso nativo.

Quando da escolha do patrono dos Correios (…) deu-se preferência ao jovem Paulo Bregaro, um mensageiro que, a mando de José Bonifácio, entregou a carta recém-chegada de Portugal a D. Pedro I, às margens do Ipiranga em 7 de setembro de 1822. O imperador leu a carta e, tomado de fúria, resolveu romper os laços com a metrópole.

Alferes Vitoriano foi preterido. Coisas da vida. Ou da morte.

               

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