O homem cordial e as domésticas na disney

Domingos Sávio Calixto

        “Homem cordial” é uma expressão do livro Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque de Holanda (sim, pai de Chico Buarque) para fazer referência ao temperamento do homem (...) brasileiro. É um livro fundamental para a história do Brasil e a tal expressão lá se encontra, extraindo seu significado do relativo ao coração, do radical latino “cordis”.

        Segundo o autor, o brasileiro como “homem cordial” significa ter capacidade de iludir pela aparência, uma espécie de disfarce, de mímica para preservar suas reais sensibilidades e emoções defensivamente em sociedade. Sob esse aspecto, o brasileiro seria um fingido, um ser que “vive nos outros”. Esse artifício de comportamento seria a “contribuição brasileira para a civilização”.

Ora, busquemos o computador mais próximo e façamos – em levantamentos e estatísticas - as devidas conferências sobre a cordialidade (fingimento) do brasileiro: A desigualdade social no Brasil é, proporcionalmente, a maior do planeta. Por conta disto, Brasil é um dos países mais racistas do mundo, que mais agride mulheres, homossexuais, extermina índios, mata e prende jovens e pobres, que mais elimina lideranças sociais, urbanas e rurais e ainda, que mais destrói o meio ambiente, sem se falar que é um dos países onde se mata mais jornalistas comprometidos com o esclarecimento destes fatos.

O noticiário está repleto de brasileiros – que se dizem pessoas de bem (?) – como autores cordiais de tais barbáries. Como se não bastasse, o cordial brasileiro também é um exímio crítico de culturas, sistemas políticos e religiões dos outros, em total desconhecimento sobre tais temas. Chega ao ponto – por exemplo – de pedir a invasão de países vizinhos sem ao menos se dar conta de que não passa de um títere repetidor de um noticiário duvidoso e mal se dá conta dos flagelos do seu próprio país.

Os fantoches cordiais são piores e podem estar presentes inclusive na Presidência, nos ministérios e nas secretarias, a serviço de uma proliferação de outros títeres e fantoches, cujos desmandos pouco importam desde que não contrariem aos seus senhores externos.

Como não pesquisar se o ministro da Economia é um títere a serviço dos bancos e das grandes corporações, principalmente internacionais? Parece que vem cumprindo fielmente sua missão de destruição e lapidação do patrimônio nacional. Ele mesmo disse que quer “vender tudo”. O problema é vender algo que não pertence a ele.

Outra fala do ministro fez referência às “empregadas domésticas”, as quais – algum tempo atrás e com o dólar em baixa – estariam indo à disney (insisto nas minúsculas) duas ou três vezes por ano, um dos motivos para a alta do dólar como refreio na economia.

Ora, é claro que o ministro estava se referindo à classe média, ironizando-a. É a classe média que o ministro entende por domésticas da classe alta e é ela que se presta ao papel de fingir-lhe subserviência, mas que na realidade quer ser como ela. É muita cordialidade.

Sérgio Buarque merece ser lembrado.

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