O Herói Está Morto

Domingos Sávio Calixto

A concepção significante do herói está ligada, originalmente, à superação da morte. Isto porque a morte é, seguramente, o destino final e comum a todos os reles mortais. Nesse aspecto, o esquecimento é a longa manus da morte e é contra ele que o herói se sobrepõe à morte, consignando sua existência no seio de uma vitoriosa história, da qual nascerão as narrativas mais gloriosas de seus feitos e mantendo sua memória imortal de geração em gerão.

É deste raciocínio que os heróis mitológicos se alimentavam. Por conta dele devotavam-se árdua e incansavelmente à coragem, à bravura e ao altruísmo, demarcados numa existência ética em defesa dos ideais mais nobres. É por isso que as sociedades precisam de heróis para cultuarem, assim como os heróis também precisam de sociedades que lhes cultuem. Parece até uma relação de sobrevivência recíproca.

É também por isso que se volve de grande sofrimento a perda de um herói. A dor da morte do herói é a dor de uma sociedade.

Sem embargo, há uma dor ainda maior. É a dor de descobrir que um herói social não é herói coisa nenhuma. Aliás, sem ser herói, era mesmo o grande vilão disfarçado, o líder de uma organização criminosa. E talvez nem isto, porque sim um subvilão com vínculos a outros vilões, verdadeiramente maiores e externos, que se utilizarem deste falso herói nacional para causar malefícios aos seus conaturais e conseguir grandes benefícios aos favores estrangeiros.

Esse falso herói foi praticamente um cavalo de troia, que agia clandestinamente com outros, enquanto a sociedade dormia seu sono midiático. Foi difícil interceptá-lo, mas nada é para sempre e não se consegue enganar a todos por todo o tempo. A questão é: como superar esta morte? Como conviver com este luto sufocante?

Ora, em conformidade com reflexões (vide Elisabeth Kubler-Ross), o luto pode ser superado. Sem carpideiras e tanto mais como preparo para quedas de outros heróis. Afinal, são tempos sombrios estes, em que choro e lágrimas tendem a ser mais frequentes.

Para tanto, há que se abordar o luto do herói – coitado! – numa faseologia pentalógica, ou seja, em cinco fases distintas e nas quais a ideia da morte vai se instalando e o luto se acomodando.

É recomendável uma breve abordagem destas fases do luto. A primeira delas é a NEGAÇÃO. Trata-se de uma natural resistência psíquica de rejeição às primeiras notícias da morte do herói. É um sentimento negacionista, uma tentativa de fuga dos fatos, afinal era um herói tão querido e não havia como (ele) morrer. Não é possível!...

A segunda fase é a RAIVA, algo muito próximo ao sentir-se traído ou mesmo vitimado por uma injustiça. Como o herói pode fazer tal coisa? Não é crível que ele tenha feito isso! Como pôde? Logo agora que o culto a ele estava no patamar mais alto das admirações... Oh, céus!

A terceira fase é da BARGANHA, a qual corresponde a tentativas de se canalizar o vazio da perda em direção às outras perspectivas possíveis, buscando um ganho moral. Afinal, não era aquele herói tão herói assim e é bem provável que existam outros mais confiáveis...!

A quarta fase é a pior delas: DEPRESSÃO. É duro admitir que o tal herói realmente se foi, está morto (!), e que foi tantas e tantas vezes cultuado inutilmente. Quase uma vergonha aceitar que o falecido tenha sido realmente um herói, mas que tombou vergonhosamente, deixando para trás uma lástima em conúbio com uma orfandade difícil de superar. Vai passar!

Finalmente a última (?) fase: ACEITAÇÃO. É o momento de abandonar a verticalização estabelecida com aquele de cujus e de retornar à horizontalidade do real, ao plano nivelador que acondiciona todas as realidades na forma mais dura, o presente. Sim, o presente eterno que insiste em fazer-se de passado e futuro quando bem (lhe) convém, mas que pesa em cada minuto a perpetuidade de um íncubo sobre o peito.

Ora, no livro Paraíso Perdido, de John Milton, consta a seguinte frase: “É preferível reinar no inferno que servir no céu”. Quem sabe esse herói morto já não tivesse feito anteriormente essa (sua) opção?

Quem sabe a capa de herói já lhe incomodasse em tormentosos desassossegos tantos que viver na vilania fosse tão mais suave, feito uma nova nau a ele entregue, junto do seu próprio mar, e de tal sorte que agora caberia a ele tão somente suas próprias, novas e lucrativas descobertas?

Talvez um novo Éden mais ao norte... Quem sabe? Ou não.

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