O dinheiro que manda

Quem acompanha o dia a dia da Câmara de Divinópolis não se cansa de testemunhar vereador implorando emendas a deputados estaduais e federais. Os representantes do povo eleitos para fiscalizar o Executivo adoram se vangloriar de terem usado a lábia para influenciar na destinação do recurso. Falam como se cada emenda que chega devesse ser obrigatoriamente convertida em votos neles. Uma campanha sem fim e que depois é compartilhada à exaustão pelos nobres em suas mídias sociais. Alguns até procuram repórteres para tentar emplacar o milagre da emenda na imprensa.  

É tanto narcisismo em cima de algo que não é mais que obrigação que excelentíssimos até se esquecem de que voto não vale dinheiro. Aliás, quem pensa que voto é algo que se compra em armazém de secos e molhados tende a se lascar com as autoridades competentes (ou, talvez, nem tão “competentes” assim, pois muitas não fazem ideia das pequenas fortunas que muitos eleitores já aceitaram em troca dos votos deles e de suas redes sociais, que agora são assediadas eleitoralmente tanto off quanto on-line).  

Voto não vale dinheiro e os aspirantes a candidatos precisam saber disso, porque muitos dos já eleitos não sabem. Um exemplo é Raimundo Nonato (PDT), que anteontem criticou na Câmara os deputados estaduais e federais que visitam Divinópolis só quando lhes convém, se informam sobre alguma mazela social e prometem soluções por meio de emendas milagrosas (ou “intervencionistas”, como está na moda dizer). Depois de eleitos, sequer se lembram dos compromissos que fizeram.  

O vereador não economizou decepção ao citar o colega de partido Sargento Rodrigues como um exemplo de deputado estadual que, segundo ele, prometeu destinar um pouco de dinheiro público à segurança pública local, mas não o fez.  

O espectador menos informado pode até se identificar com esse discurso. Porém, como o jornalismo de qualidade não pode e nem deve se conformar com as explicações que recebe sobre as coisas do mundo, o Agora procurou e ouviu o deputado, como forma de compreender o que estava nas entrelinhas e permitir que você, leitor, leia a reportagem publicada na página 3 e tire suas próprias conclusões.  

Sargento Rodrigues disse que, em setembro de 2014, foi procurado no gabinete dele por Raimundo Nonato, que teria ido lá em busca de uma emenda para a segurança pública. Ao que tudo indica, aquela que tanta ira despertou no vereador. O deputado jura que pediu que Nonato lhe enviasse um ofício explicando qual seria o setor ao qual o recurso serviria. Porém, jura de novo, nunca recebeu. 

Assim, Nonato se diz indignado com os 1,4 mil votos que Sargento Rodrigues recebeu em Divinópolis. Insinua que esse resultado foi fruto da manipulação de pessoas que acreditaram no que seriam palavras de um futuro bom e votaram no militar. Magoado, afirma que, daqui pra frente, tudo vai ser diferente. Que o deputado tem que aprender a ser gente antes de pisar novamente por essas ruas de Adélia Prado. 

Mas ao repórter o militar não se faz de rogado. Disse que os votos que conquistou na cidade são frutos de 19 anos de trabalho em prol dos direitos trabalhistas de quem trabalha nas polícias Civil e Militar, no Corpo de Bombeiros e nos sistemas prisional e socioeducativo. Orgulha-se pela aprovação de um aumento de 101% nos rendimentos dessas turmas (tanto para os servidores da ativa quanto os aposentados e pensionistas). Mais uma vez o dinheiro como moeda de troca. Dou-lhe polpudos ganhos e dai-me teu voto. 

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