O Diário de Freud: mais que uma peça, um convite

Wilson Diniz

Polemista, revolucionário e pai da psicanálise. Estas são algumas entre tantas outras formas com que Sigmund Freud é por vezes, definido. Superando qualquer reducionismo e não se limitando a superficialidades o Grupo BAAL de Teatro nos brindou nos dias 28 e 29 de maio, na III Mostra divergente de Teatro de Divinópolis com a peça O Diário de Freud, sob a direção de Valério Peguini.

Com tom instigante e provocador a peça nos apresenta, através de um cenário que representa de maneira sucinta e precisa o tipo ideal de um consultório psicanalítico, por vezes um diálogo subjetivo entre o jovem Freud e o velho Freud, por outras um monólogo protagonizado ora pelo jovem, ora pelo velho Sigmund Freud.

Durante os monólogos, através de um uso irretocável de suas vozes, movimentos gestuais e olhares os atores conduziram o público a profundas reflexões e momentos de inevitável emoção. Quando partiam para os diálogos, impunham paradoxos em que passado e presente se colocavam face a face, fazendo com que o velho Freud assumisse uma espécie de “auto paternagem” revestida de um auto complexo de édipo, em que o eu mais jovem e o eu mais velho do ícone psicanalista se vê em um intenso debate interno no qual perpassa seus orgulhos, experiências, alegrias e frustrações, como se promovesse uma antropofagia de si mesmo, comendo-se, devorando-se, deglutindo-se, mastigando-se e ruminando-se.

Heitor Júnior, dando vida ao jovem Freud, expõe de maneira elegante e envolvente um misto de petulância, arrogância, prepotência, inexperiência, coragem e brilhantismo intelectual como aspectos psicológicos marcantes do pensador que se formava, enquanto isso, encarnando o velho Sigmund Freud, o diretor Valério Peguini brindou a todos,através de uma performance impecável, com uma apresentação de um homem velho, carregado de diversos estereótipos que a velhice carrega consigo, mas imbuído de uma carga fenomenal de conhecimento sobre os mais diversos aspectos da vida humana, se equilibrando entre sarcasmos, sobretudo com questões eróticas e que envolvem a sexualidade, comoção para com suas experiências particulares, além de demonstrar com propriedade, firmeza e maturidade intelectual.

Construída com início, meio e fim bem delineados, carregados de frases marcantes, olhares instigantes e importantes propostas de reflexão, o Diário de Freud é uma peça tanto para aqueles que não conhecem a obra do intelectual, tanto para aqueles que possuem maior afinidade com suas teses, sendo antes de tudo um enorme capital cultural para qualquer um que a assista, uma vez que não se trata de uma mera representação biográfica (o que por si já é algo louvável e admirável), mas diz respeito também e, sobretudo, a um convite performático, filosófico e inteligente a olharmos para além da ponta o iceberg.

Wilson Diniz é licenciado em História pela UEMG, bacharelando em Administração Pública pela mesma universidade. Atua como professor na área de ciências humanas nas redes privada e estadual de ensino.

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