O cinema nacional e a síndrome do vira-lata

Maria Tereza Oliveira 

Recentemente o cineasta Kléber Mendonça Filho, responsável pelo incrível "Bacurau" (2019), divulgou em suas redes sociais os pôsteres do longa, que estreia mês que vem no Japão. Isso aponta os holofotes para a relevância da obra, mesmo mais de um ano após o seu lançamento. O filme, inclusive, com sua estreia nos cinemas internacionais, tem sido cotado para a disputa ao Oscar. No entanto, ao passo que ver o impacto de uma produção brasileira ganhar espaço no cenário internacional traz satisfação, também destaca a falta de prestígio que a 7ª arte produzida no país tem em seu próprio quintal. Isso porque, mesmo com status de hit, foi mais fácil para Bacurau cruzar o mundo do que chegar a Divinópolis.

Isso acontece pela falta de salas destinadas para produções nacionais e também pela mania do próprio público brasileiro em subestimar as produções tupiniquins. Para dificultar a situação, que já não é fácil, vemos os governos recentes numa força tarefa para o desmonte da Agência Nacional do Cinema (Ancine), além de uma demonização das leis de incentivo à cultura.

Enfim, a hipocrisia...

Ainda falando da falta de incentivo e as tentativas de desmoralizar iniciativas que podem fomentar a indústria audiovisual, é preciso entender quais os argumentos usados para desvalorização do cinema nacional. Os críticos das leis de incentivo à cultura, em sua maioria, defendem que este recurso deveria ser destinado a outras pastas, principalmente para a Saúde. Sem entrar no mérito das prioridades ‒ e claramente a Saúde é a base de tudo ‒, o governo federal tampouco parece preocupado com isso, uma vez que ontem mesmo surgiram notícias sobre uma possível intenção em privatizar setores do Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS é utilizado por 70% da população brasileira e o risco de entregar ‒ por menor que seja essa entrega ‒ para a iniciativa privada teria resultados desastrosos para a população. Então o sucateamento da Ancine teria mesmo o intuito de beneficiar a Saúde? Enfim, a hipocrisia...

A meu ver, a ideia de demonizar o cinema nacional por parte de governantes seria para facilitar na alienação popular. Quanto menos produções existirem, menos temas chegam ao grande público sobre problemas sociais brasileiros. E os poucos que surgem têm mais dificuldade em conseguir levar essa reflexão para os brasileiros e também furar a bolha e ganhar o mundo.

Um exemplo que sempre me vem à cabeça quando penso em como boas ideias brasileiras poderiam trazer bons frutos com um pouco de incentivo é o filme "Que Horas Ela Volta?" (2015). O longa traz uma discussão sobre a desigualdade social e, apesar de ser bastante elogiado, não recebeu o destaque merecido. Para demonstrar o potencial que a película tinha, três anos depois, foi lançado "Roma" (2018), que trouxe uma temática parecida e foi reconhecido mundialmente, inclusive ganhando Oscar nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia e Melhor Direção. Sem contar nas outras sete indicações que recebeu ‒ incluindo Melhor Roteiro Original. 

Um dos pontos mais elogiados da produção estrangeira é justamente algo feito três anos antes pelo filme nacional: a abordagem da desigualdade social tão presente em sociedades latinas.

Cinema blockbuster

Eu poderia falar sobre os malefícios que a predominância de filmes hollywoodianos nas salas de cinema tem na indústria nacional, mas isso seria assunto para uma coluna só. Em vez disso, vou me focar em falar dos filmes nacionais feitos com maiores orçamentos para atingir um público maior. Isso mesmo, os blockbusters nacionais.

É óbvio que para tal é preciso ter uma noção ao comparar os lucros de blockbusters brasileiros com os de Hollywood. Tanto o investimento quanto os lucros se divergem bastante. O meu intuito é salientar como o público nacional em geral trata o cinema brasileiro pautado nas obras que conseguem chegar ao grande público.

É comumente em tom de menosprezo que se fala desses filmes pipoca. "Filme nacional é sempre sobre uma comédia pastelão." Primeiro: qual o problema de ter o humor como principal gênero? Em segundo lugar, nem todo filme é feito com o intuito de ser uma grande obra filosófica. Terceiro que é um tanto quanto "interessante" que, muito frequentemente, a mesma pessoa que critica isso é o público-alvo dos filmes pastelão do Adam Sandler ‒ nada contra ‒ o que mostra uma síndrome de vira-lata ao enaltecer a fórmula quando feita por um gringo e criticar se for feita por brasileiros.

E isso não é exclusividade de quem é "hater" do cinema nacional. Muitos consumidores que se consideram "cult" também criticam os filmes nacionais pipoca. No entanto, ao fazer isso, a pessoa acaba jogando contra a indústria cinematográfica, porque se esquece de que o segmento já é algo fragilizado no país e, para ter recursos, é necessário contar com películas que trarão retorno financeiro para que se invista em mais produções. E, além do mais, cinema não é só conceito e reflexão. O papel de entretenimento é tão importante quanto. Sem contar que também é uma forma tão eficiente quanto o cinema independente para representação da cultura brasileira.

Para finalizar, sempre bom lembrar: valorize o cinema nacional e, principalmente, defenda o SUS!

Maria Tereza Oliveira é jornalista e apaixonada por cinema

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