O caminho do caos

Editorial 

Os brasileiros montaram o caminho perfeito para o caos. O pico de casos de Coivid-19 chegou, e Divinópolis vive um dos momentos mais delicados de sua história: a transmissão local em grande escala do coronavírus. Até o momento, a cidade tem 26 casos confirmados, uma morte e 927 casos suspeitos. As primeiras notificações e casos suspeitos por si só seriam suficientes para que a população tomasse os devidos cuidados e cumprisse a quarentena como deve, mas não. Nem mesmo quase mil casos suspeitos de uma doença que até mesmo médicos têm medo, que cientistas trabalham noite e dia para entender, que não tem um remédio específico, nem mesmo sabem o qual a sua cura, que não tem uma vacina, fez com que a população tivesse o mínimo de cuidado e refletisse sobre o assunto. Quem andou pelas ruas do Centro de Divinópolis neste sábado, 11, se assustou com o movimento. Era como se não houvesse uma pandemia. Como se não houvesse um vírus letal circulando por aí. Como se dois decretos não ordenassem isolamento domiciliar. 

As ruas estavam lotadas. Não havia uma vaga sequer para parar um carro. Estacionamentos abertos. O povo circulava como se o mundo inteiro não estivesse enfrentando um inimigo invisível e perigoso, que transmite uma doença que ninguém sabe de onde veio, o que pode causar, quando ela vai acabar e que coloca todos em perigo – até mesmo os que não estão no grupo de risco. Sim! Até mesmo os que não estão no grupo de risco estão morrendo. Na última quarta-feira, 8, Divinópolis teve a sua primeira perda causada pelo coronavírus. A médica Ana Cláudia Rodrigues, 46 anos, nova e saudável, perdeu a luta para a Covid 19. Ana não tinha histórico de doenças crônicas, era atleta e muito atuante em sua profissão. Talvez, se Ana estivesse aqui e pudesse falar, ela diria: fiquem em casa, cuidem de vocês, cuidem de suas famílias. Ana se foi, deixando um vazio enorme em sua família e em seus amigos. Ana se foi sem direito a despedida. Ana hoje é saudade, é lembrança, é símbolo. Símbolo de luta. Enquanto Ana lutava bravamente no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) por sua vida, o povo brincava de quarentena, lotando as ruas da cidade. E ela não foi a primeira. Diversas pessoas até mais jovens, saudáveis, na faixa etária de 20 e 30 anos. 

A Fundação Ezequiel Dias (Funed) anunciou na última semana que os exames de dengue, zika e chikungunya estão suspensos por tempo indeterminado, para dar prioridade aos testes de coronavírus. O sistema sobrecarregou. Hoje é a Funed, amanhã serão os hospitais. E, a continuar assim, nos próximos dias serão: Anas, Marias, Josés, procurando por atendimento médico e não terão. E, neste momento, muita gente se arrependerá amargamente por não ter ficado em casa. E aí, somente aí, quando um médico tiver que escolher quem atende, quem tem mais chance de sobreviver, é que o povo, o mesmo que está hoje construindo o caminho do caos, entenderá a gravidade do assunto. Só aí a população verá que não é uma “gripezinha”. O caminho perfeito para o caos está sendo construído pouco a pouco, e não está sendo construído pelos políticos, mas, sim, pelo povo. O povo que terá que provar do seu próprio veneno, do seu caos. Não somente na saúde, mas econômico. Com tudo parado, a economia trava, e muitas pessoas passarão por momentos nunca vistos e sentidos na pele. E o temor existe, tanto que ontem o prefeito, Galileu Machado (MDB), decretou estado de calamidade pública financeira até o fim do ano. É isso que você, divinopolitano, quer para a sua vida e da sua família? Se não, respeite o momento para que possamos sair dessa o mais rápido possível?

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