O 7 de Setembro de Laiz Soares

Ex-candidata a prefeita em Divinópolis aponta o caminho da frente democrática ao comparecer ao Grito dos Excluídos

Por Márcio Almeida

Jovem estreante da política divinopolitana, com mais de 20 mil votos e um terceiro lugar na disputa da Prefeitura no ano passado, Laiz Soares compareceu ao Grito dos Excluídos, a manifestação de protesto por inclusão social que entidades da sociedade civil e alguns partidos realizam há quase três décadas em vários municípios brasileiros durante o feriado da Proclamação da Independência. O evento divinopolitano, realizado na Praça Candidés, contou com a participação de algumas dezenas de pessoas e foi organizado por um grupo de professores, estudantes, funcionários públicos, sindicalistas, militantes partidários e simpatizantes da causa. Posicionada no centro do espectro ideológico brasileiro, naquele ponto em que a defesa do mercado é vizinha das preocupações sociais, Laiz esteve na praça ao lado de um público que se põe à esquerda, o que, segundo mais de um testemunho, não deixou de causar em alguns, certa mistura de surpresa e estranhamento.

Há algo a ser refletido no fato de uma personalidade de centro da política local ter comparecido a um evento da esquerda no mesmo dia em que muita gente da ultradireita foi às ruas — tanto em Brasília e São Paulo quanto em Divinópolis e muitas outras cidades — para ouvir a fala do presidente Jair Bolsonaro em sua cruzada contra instituições basilares do Estado Democrático de Direito como o Supremo Tribunal Federal, ao qual a retórica do bolsonarismo tenta atribuir a culpa pelos fiascos da saúde pública, da retomada econômica, da educação, do meio ambiente e da modernização do estado. O 7 de Setembro de Laiz Soares no Grito dos Excluídos realizado em Divinópolis sinaliza, no microcosmo municipal, para uma situação de caráter nacional. Analisá-la, tanto do ponto de vista do centro, onde está a ex-candidata, quanto da perspectiva da esquerda, é fundamental para entender o contexto atual da multifacetada política divinopolitana.

Do ponto de vista de Laiz, o que se percebe é que sua iniciativa de aproximar-se dos insatisfeitos com o golpismo bolsonarista é parte de um movimento nacional. A ex-candidata não foi ao Grito dos Excluídos como quem adere aos valores ideológicos de siglas, grupos e movimentos de esquerda da política local. Ela foi ao ato, obviamente, como liderança política que entendeu de modo oportuno que, para além das diferenças palpáveis que separam o centro da esquerda, é irresponsabilidade política negar que ambas têm hoje em comum a luta pela sobrevivência da democracia, este velho e atacado sistema que permite votar e ser votado com base nas leis. Ela foi ao ato como quem, sendo liderança democrática, percebeu que não lhe cabia ir a manifestações de apoio a um presidente que — de mãos dadas a fazedores de “rachadinhas” e suspeitos de superfaturar vacinas — escarra na democracia, vomita na ética e cospe na legalidade. O lugar de Laiz no 7 de Setembro, e o mesmo vale para os autênticos democratas divinopolitanos, era a Praça Candidés.

Do ponto de vista da parte da esquerda divinopolitana que organizou o Grito dos Excluídos, também se pode dizer que o estranhamento de alguns participantes do evento quanto à presença de Laiz é reflexo de uma situação nacional. No Brasil inteiro, a esquerda democrática costuma estranhar, muitas vezes com razão, a aproximação do centro. Felizmente, Laiz não foi hostilizada ao chegar ao evento, o que demonstra visão ampla e madura dos que lá estavam como organizadores ou participantes. É o caso de esperar que as lideranças da esquerda façam o mesmo no país quanto ao centro. Não é esta a hora propícia para a legítima contraposição de projetos políticos. Quando o presidente da República faz campanha aberta contra a democracia, é preciso, em nome do mais elementar bom senso político, que se aceitem, para a pauta comum que é a defesa do Estado Democrático de Direito, todos aqueles que, no centro ou na direita, estiverem dispostos a engrossar o grupo de defensores.

Não faria mal, a propósito, escutar um pouco do que tem a dizer a história. Aos que se dispuserem a ouvi-la, a voz firme da narrativa histórica poderá contar sobre aquele belo e difícil ano de 1984, quando os palanques das “Diretas Já” uniram liberais como Tancredo e Ulysses, sindicalistas como Lula, socialistas do velho estilo como Brizola, comunistas como Roberto Freire e membros do centro como Fernando Henrique e Mário Covas. Eram pequenos aqueles palanques, que também recebiam artistas e intelectuais. Contudo, ainda que apertados, couberam todos. E, se não fosse aquela apertada união de pessoas tão diferentes, provavelmente o país não teria tido tão cedo a esperada redemocratização. Pois bem: o que Laiz Soares está propondo aos democratas de Divinópolis com seu gesto de ir ao Grito dos Excluídos no 7 de Setembro é um palanque desse tipo neste momento em que a democracia reconquistada nos anos 1980 pode ser roubada pelo fanatismo. Uni-vos, pois, democratas!

Márcio Almeida é professor, jornalista e analista político em Divinópolis, MG.

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