Não há nada capaz

Não há nada capaz 

Editorial

Se existe um sentimento que o brasileiro tem convivido no último ano é a expectativa. Segundo o dicionário, o sinônimo deste substantivo é: espera, aguardo, esperança, expectação, aguardamento. Desde março do ano passado, o povo brasileiro vive em uma expectativa sem fim. Expectativa que tudo dê certo, que tudo acabe logo, que a vida volte ao normal, que a vacina chegue, que as notícias boas comecem a ser dadas. Mas, ao que tudo indica, viver sem essa “expectativa” está longe do fim. A covid-19 voltou a avançar no Brasil, após três semanas de queda. O mesmo ocorre em Divinópolis, onde os índices epidemiológicos mostraram que a cidade está mais uma vez em um nível alarmante. Em apenas três dias, o ritmo de contágio da doença passou de 0,96% para 1,38%, e logo em seguida para 1,51%, colocando a cidade próxima da onda roxa do programa Minas Consciente. 

Cientistas apontam que restrições mais rígidas surtiram efeito em março, mas a suspensão delas antes que a transmissão do vírus estivesse de fato controlada levou a essa reversão de tendência em diversas partes do país. E não há nada neste mundo capaz de fazer com que o brasileiro cumpra a sua parte na contenção do avanço da doença. Não existem dados epidemiológicos que façam com que a população aja com cautela e responsabilidade. Exemplo disso foi a aglomeração descabida  mostrada nas redes sociais ao lado do Shopping Pátio, que foi erroneamente atribuída à boate que funciona no local. A gravação mostra que não existe esforço capaz de mudar o ser humano quando ele simplesmente não quer. Apesar das incansáveis recomendações, dos protocolos de prevenção, o povo estava no local como se não houvesse um vírus letal circulando, doido para encontrar uma pessoa para entrar. 

O que mais impressiona – além do número de pessoas aglomeradas, e a maioria não usava sequer máscara facial – é que, segundo a nota divulgada pelos estabelecimentos, esta não é a primeira vez que o fato acontece no local. Ainda de acordo com a nota, tanto o shopping quanto a boate acionaram a Polícia Militar (PM) e os fiscais da Prefeitura para dispersar a multidão. Tal situação nos tira a esperança de que tudo isso vai acabar logo, e escancara que tudo só está do jeito que está por causa do povo, que insiste em viver como se a pandemia simplesmente não existisse. Como se hoje, milhares de pessoas não estivessem lutando por suas vidas nos CTIs, nas enfermarias... Como se não houvesse mais de 430 mil famílias de luto por terem perdido algum familiar ou amigo para esta doença. 

A situação registrada sábado é apenas a “ponta do iceberg” do que acontece por aí todos os dias. Festas interrompidas, pessoas aglomerando sem qualquer tipo de responsabilidade e inúmeras situações em que os protocolos de prevenção são desrespeitados. Tudo isso só nos mostra que viveremos durante um bom tempo na expectativa. Na expectativa que tudo isso vai passar, que tudo isso vai acabar, vivendo apenas de esperança, enquanto a vida já começa a voltar ao normal em outros países. Como diz o ditado: “vamos apenas ver com os olhos e lamber com a testa”.

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