Mortos não falam

Editorial

Os mortos não falam, isso é fato. Se falassem, talvez teriam mais atenção do que os buracos das ruas, do que as brigas na internet. Não é de hoje que o Serviço Municipal do luto (SML) deixa a desejar por parte das gestões, pois os que se foram não dão ibope. Se bem que uns, dependendo dos interesses, continuam rendendo assunto por muito tempo. Sobre o Serviço do Luto, trata-se de um dilema que causa sofrimento a dezenas de famílias, no entanto, não tem a atenção merecida. Demanda não lembrada, mas essencial às famílias que perdem seus entes queridos. Como se não bastasse não saber quem busca o morto em casa, quem emitirá o atestado de óbito, se chama o Samu para tentar socorrer a vítima, ou se chama o Luto para buscar o morto para ser levado à UPA ou para ser preparado para o velório. Assim tem acontecido na cidade do “vale-tudo”, um verdadeiro bang bang, onde o importante são os holofotes que vêm das curtidas dos vídeos inusitados. Como os mortos não falam, os parentes que lutem para seus entes não serem enterrados erroneamente por outros familiares e não dar tempo do último adeus. Quanta idolatria por partidos, por políticos e pouco amor à pátria e ao próximo. Infelizmente, uma venda nos olhos, como se não houvesse o amanhã e menos ainda necessidades, prioridades e sofrimento.  Ah, não existe isso na política. O ser humano deixou de ser prioridade há muito tempo, pois essas práticas tão necessárias no mundo hoje também não dão visibilidade e menos ainda ibope. Só se tornam importantes quando as eleições se aproximam. Nesses períodos, geralmente, as compaixões, antes ignoradas, afloram.

Mas e os mortos? Ainda assim, continuam sem importância, pois os coitados não falam e, pior, não votam, então não tem lugar na fila para falar de suas prioridades.  Assim, segue a peleja. Claro que eles fazem parte de uma pauta dos governantes, mas apenas como estatística. Só não estão entre os assuntos das famosas reuniões infinitas e postadas nas redes sociais que dizem tratar para resolver diversos problemas pendentes e que só ficam mesmo nas promessas. 

Ah, voltando aos mortos não falam, há muito tempo os prestadores de serviço no SML vinham   sofrendo calados, alguns por falta de informações, outros por informações demais, desnecessárias e distorcidas.  Assim, as pessoas não sabem como agir em momentos como o ocorrido na semana passada, na troca de um corpo de um ente querido. A dor de uma família deixou também de ser prioridade quando ocorre um erro desse e simplesmente se diz “Desculpas, erramos”, e pronto: tudo resolvido! E a dor dos parentes, que, ao abrir o caixão para despedir de seu familiar, se deparam com um outro corpo, que talvez nunca tenham visto, fecham a urna e devolvem? A dor dessa família seria menor do que da outra? O corpo vai de lá para cá e de cá para lá ‒ teria essa família tido tempo de se despedir dignamente? O que causou toda esta confusão? Quem pode responder?  O correto  seria colocar, em qualquer poder  que seja,  pessoas que zelam pelo seu povo em todos os sentidos, e não apenas naquilo que acham importante  ‒ no entanto, não é isso que acontece  no Brasil e não é de hoje. Mas, enquanto existirem pessoas que batem palmas para tudo que veem sem enxergar, nada vai mudar em uma sociedade esquecida, abandonada, jogada à própria sorte. E as tentativas dos setores privados, afinal, tem se usado muito fazer bonito com chapéu dos outros, não é mesmo?! Muito triste, mas os mortos continuarão sem voz, um exemplo disso é a esquina da Minas Gerais com Paraná, onde nem depois de mortos e enterrados, os mortos têm paz, pois não falam! Mas tem muitos vivos mortos, e como tem! René Descartes disse: “Penso, logo existo”! Então está faltando o povo pensar e dar voz àqueles que jamais poderão falar, pois mortos não falam!

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