Morte ao piano em Paris!

Raimundo Bechelaine

Sempre, desde que fomos concebidos no ventre materno, a morte nos ronda de todos os lados. Porém a peste do coronavírus a tem colocado como realidade mais agressiva e evidente. Mas nem só de covid-19 se morre. Ninguém está proibido de morrer segundo os velhos esquemas. De ataques cardíacos, de câncer, de acidentes de trânsito, até de suicídio, de assalto seguido de morte. Pode-se ainda morrer de rir, de raiva, de vergonha, ou seja lá do que for. Afinal, continua valendo o adágio: “para morrer, basta estar vivo”.

Extremo bom gosto – extremo nos dois sentidos! – teve o filósofo marxista brasileiro, falecido no último 1º de maio. Ruy Fausto morreu em Paris, de infarto, enquanto tocava piano. Não se sabe que peça executava, se Vila Lobos, Tchaikovsky ou a Internacional. 

Tinha 85 anos. Nasceu em São Paulo, em 1935, e era irmão do historiador Boris Fausto, professor da USP, como ele. Perseguido pela ditadura civil-militar de 64, exilou-se na França. Doutor em filosofia pela Universidade Paris-Sorbonne, é reconhecido como um dos principais teóricos do marxismo no Brasil. Sua obra mais importante é “Marx: lógica e política”, publicada em 1983. É visto como um analista agudo e imparcial das estratégias e opções do movimento comunista internacional, reprovando, sobretudo, as experiências que levaram a regimes totalitários. Defendia que a democracia e uma ética rigorosa são elementos imprescindíveis do projeto socialista. 

É considerado grande intérprete da realidade nacional e analista imparcial e corajoso da esquerda brasileira. Nesta linha, publicou livros como: “A esquerda difícil”, em 2007, e “Caminhos da esquerda, elementos para uma reconstrução”, em 2017. Neste pestilento 2020, ainda teve tempo de publicar “O ciclo do totalitarismo”, sua última obra. Apontou o que considerava desvios e erros cometidos pelos partidos de esquerda e suas lideranças, especialmente o PT e os governos de Lula e Dilma, sem ignorar os seus acertos. Entre os intelectuais petistas, fez críticas ácidas às posições e atitudes de Marilena Chauí. Sobre ela escreveu: “Para além dos velhos laços de amizade e de lealdades acadêmicas, é preciso afirmar com todas as letras: o discurso político de Marilena Chauí tem representado verdadeira catástrofe para a esquerda”. (Revista Piauí, 2016)

Não há dúvida de que Ruy Fausto figurará ao lado de nomes consagrados, como Celso Furtado, Paulo Freire, Álvaro Vieira Pinto, Darci Ribeiro e outros. Deixa uma herança valiosa para o futuro da esquerda. Pois o futuro será socialista. jorababech@gmail.com







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