Missas presenciais

Raimundo Bechelaine

Datado de 7 de junho, domingo da Santíssima Trindade, o bispo diocesano dom José Carlos deu a público um pronunciamento: “Novas orientações diocesanas em tempo de pandemia”. Embora os destinatários das orientações não sejam enunciados, subentende-se que seriam os párocos e administradores das 56 paróquias existentes nos 25 municípios que integram a Diocese de Divinópolis. 

A questão central, motivadora das ditas orientações, é a reabertura dos espaços religiosos para a presença dos fiéis nas celebrações de missas, batizados e matrimônios. Esta possibilidade parece referir-se também aos cultos presididos por ministros, nas capelas rurais.

O documento foi divulgado, na íntegra, nos meios de comunicação. Todavia, além do objetivo explícito e formal, será interessante observar alguns aspectos de fundo que ali se revelam. Logo de início, salta aos olhos a excelente capacidade de raciocínio lógico e de expressão clara e precisa do autor. 

Entretanto, muito mais importante é que fica patente o valor primeiro na mente do pastor diocesano: a vida e saúde do rebanho. Ele instrui aos sacerdotes que “estejam atentos para situações de agravamento do quadro de contágio que obriguem a novo fechamento, mesmo que as autoridades municipais insistam em continuar. (...) Com temor, decidimos experimentar aqui a reabertura possível e permitida. Contudo, não nos esqueçamos de que nosso compromisso com a vida deve ter a primazia maior do que aquela dada pelas políticas e agentes públicos.” Ou seja, dom José não reivindica o culto a qualquer preço. Ele sabe que o maior louvor a Deus é o homem vivo, saudável e livre.

Outra linha de pensamento, que perpassa as “novas orientações”, supõe uma filosofia política. O bispo reconhece tranquilamente os limites entre o poder civil e a sua autoridade religiosa. Ou seja, na presente situação da peste da covid-19, deve prevalecer a autoridade do poder civil guiada pelas determinações científicas. Ele o diz em várias passagens. “Sabemos que os decretos municipais podem ser revogados ou modificados a qualquer momento e haveremos, nesta circunstância, de retroagir igualmente, respeitando e colaborando com os processos que garantam e promovam a saúde pública. Cada sacerdote, em diálogo com as autoridades sanitárias do município, decida...” 

Porém é ainda mais explícito: “A decisão primária nesta matéria não é do bispo diocesano, mas das autoridades sanitárias. Não optaremos pela desobediência nem por posturas de risco à saúde pública”. 

Enfim, as práticas da fé não dispensam as regulações da razão política e científica. Antes, convivem com elas. Nada de absolutismo fundamentalista da razão religiosa.  jorababech@gmail.com




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