Missas e cultos são essenciais?

Raimundo Bechelaine

Missas e cultos são essenciais ?

O vocabulário que usamos comumente, no dia a dia, é reduzido e simples. Normalmente, usamos palavras bem conhecidas de todos. Porém ocorre que acontecimentos ou situações façam com que palavras de uso mais culto ou erudito saiam dos dicionários para a rua. Isto é, passem a ser usadas por todos, tornem-se populares, mesmo que quase ninguém saiba o que significam exatamente e até provoquem equívocos.

É o que acontece agora com o adjetivo "essencial". É um termo filosófico. Aparece nos escritos de Aristóteles, São Tomás de Aquino e de inúmeros filósofos. Essencial é aquilo que faz parte da essência de um ser. É uma propriedade ou característica que, se for tirada ou alterada em um ser, ele deixa de ser o que era, deixa de existir. Ou seja, todo ser precisa de suas qualidades essenciais para existir. 

Os decretos das instituições encarregadas de administrar a pandemia passaram a falar em atividades essenciais e não essenciais. Padarias, armazéns, supermercados, farmácias e hospitais são declarados essenciais. Restaurantes e bares, lojas, salões de beleza e casas de diversão são classificados como não essenciais e proibidos de funcionar. Entram neste caso os templos e, consequentemente, as celebrações com a presença de público.

E todos passamos a usar esses vocábulos e a debater sobre o que é ou não é essencial. Nos últimos meses, discute-se se os cultos nos templos são essenciais. A discussão chegou a tornar-se acesa, agressiva, ideológica. Muita tolice se diz e se ouve. Cenas de histrionismo pseudoreligioso viram-se por aí. Há quem proteste: "Estão nos tirando o direito de professar a fé!". Sem sequer saber o que é comunismo, outros clamam: "É o comunismo!".

Templos e rituais religiosos existem em todas as culturas e muitos são belos exemplos de arte. Apesar disso, devemos reconhecer que não são essenciais. Fé e religião podem existir sem eles. A própria Bíblia os relativiza. Em Oséias, lê-se: "Quero misericórdia e não sacrifícios, o conhecimento de Deus mais que os holocaustos" (6,6). Jesus diz: "Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora em segredo" (Mt. 6,6); e replica à samaritana: "Chegou a hora em que não adorareis nem neste monte nem em Jerusalém. Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade" (João 4, 21-24).

Acrescente-se a isso que hoje temos orações e prédicas pelo rádio, televisão e internet. Surge, então, uma pergunta. Se a fé e suas práticas independem de lugares e horários, qual é a razão do clamor exaltado de certas lideranças religiosas pelas celebrações presenciais? Será mesmo por amor a Deus? jorababech@gmail.com



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