Medo do amanhã

Leila Rodrigues

Quando eu tinha 17 anos eu achava uma pessoa de 50 anos velha. Os 50 chegaram e eu estou até hoje procurando a “velha” que eu imaginei dentro de mim e ainda não encontrei. 

Definitivamente, o que determina a “velhice” não são os anos da certidão de nascimento. Conheço “velhos” em plena juventude e conheço “jovens” no esplendor dos seus 70 anos. 

Só quando vivenciamos a maturidade, conseguimos entender o que ela realmente significa. Somos uma geração que fez! Uma geração que foi atrás de uma profissão, de um lugar no mundo. Fomos protagonistas de uma mudança que ficará para sempre. Assumimos mais papéis que qualquer outra geração e provavelmente por isso chegamos à maturidade com vigor e conhecimento intelectual invejáveis. Estamos aqui e ainda temos muito a contribuir. Muito além das nossas limitações físicas. E será que isso agora perdeu o valor?

Contudo, o medo de envelhecer ainda assola quem está beirando os 40, os 50 ou 60. Especialmente nós, mulheres, que crescemos acreditando que beleza, dinamismo e vigor são privilégios que só duram até os 40 anos.

Até quando vamos viver fingindo que o tempo não passou? Por que uma mulher precisa esconder a idade, camuflar as rugas, pintar os cabelos e fazer um esforço sobre-humano para se manter “em forma”? Que forma é essa que escraviza e nos restringe o prazer de uma fatia de bolo? 

E dá-lhe remédio para dormir, depois outro para acordar, outro para despertar a libido, outro para camuflar o mau humor e todos os filtros possíveis para camuflar a história verdadeira que o nosso rosto estampa!

Estamos todas exaustas! Exaustas de disciplina, exaustas de correr atrás de um padrão que ninguém sabe ao certo onde começou mas sabemos bem onde termina.

 Essa história termina com palmas e aplausos de gente que não conhece de fato a nossa história, nem tampouco as lutas que travamos para chegar até aqui e a solidão de ir dormir com o corpo perfeito e a cabeça cheia de remédio para dormir.

Há que se cuidar, sim, para ficar bem, para ter conforto, saúde e qualidade de vida, não para voltar no tempo e travestir uma juventude que não existe mais.

 Que medo é esse do amanhã? Que medo é esse de chegar à velhice? A esta altura de nossas vidas somos todos vencedores. Todos já lutamos o bastante para merecermos viver nossas velhices com tranquilidade e leveza. Nas famosas “linhas de expressão” de cada rosto, uma história foi escrita. Se você prefere apagar e fingir que está começando agora, aí já é outro problema!

 

leila.palavras@gmail.com

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