Mau-trato silencioso contra idosos

Nas ruas de Divinópolis, muitos se rendem a postos de trabalho precários

Ana Laura Corrêa

Na “Semana dos Idosos”, a reportagem encontrou um que parece ter sido deixado de lado nas comemorações, entregue à precarização do trabalho. Ontem, no início da tarde, em uma rua próxima à praça da Bíblia, no bairro São Judas, ele puxava lixo reciclável. Carros e pessoas passavam pelo idoso, que seguia com o peso, embaixo de chuva.

Jésus Monteiro, de 78 anos, trabalha há mais de oito com este serviço. Parte de sua perna e o pé esquerdo são uma prótese, colocada depois de ter sido atropelado, 18 anos atrás. Deficiente, caminha quilômetros todos os dias, com peso, para complementar a renda.

 Aposentou-se metalúrgico.

— Mas a aposentadoria é muito pouco, salário mínimo não dá para fazer nada. É a conta de pagar aluguel, não sobra para quitar as contas. E ainda descontam empréstimos nos nossos salários, sobra muito pouco e temos que lutar com isso aí — disse à reportagem.

Jésus mora com a companheira, que trabalha com o mesmo serviço. Ela se aposentou por invalidez, depois de quebrar o joelho e não mais conseguir dobrar a perna. Com eles, também vive uma neta de Jésus, de 12 anos, cujo pai está preso.

— Tenho um casal de filhos, e o rapaz está preso pela quarta vez já. Agora deve sair — relatou o catador.

Quando conversou com a reportagem, Jésus, que pesa 49 quilos, estimou que estivesse carregando de 70 a 80 quilos. Segundo o catador, o material renderia, no máximo, R$ 30. Morador do bairro Belvedere II, ele disse ainda que costuma sair às 5h e voltar às 19h.

— Mas, nos dias de calor, eu não estava podendo trabalhar — disse.

Ontem, a chuva e o peso fizeram com que ele fosse para casa mais cedo, por volta das 12h.

— Vou embora, está pesado demais, custando a subir o morro — disse à companheira durante uma chamada telefônica recebida enquanto conversava com a reportagem.

O trabalho é feito dia sim, dia não.

— Falho um dia porque não aguento. Ao chegar em casa, tenho que tomar um banho e ficar de repouso, até amanhã. É muito pesado esse troço — reclamou.

O serviço, segundo ele, se tornaria menos árduo com o auxílio de uma condução.

— Nem que seja velha, para trabalhar. Uma caminhonete de segunda mão dava, mas eu não consigo de jeito nenhum — relatou Jésus, que também aceita doações de alimentos e roupas.

Enquanto isso...

Dentro das atividades da 19ª Semana Municipal do Idoso, ocorre hoje, na Câmara de Divinópolis, a audiência pública "Como envelhecer com qualidade: Divinópolis está preparada?". Durante toda a semana, foi realizada uma vasta programação, que incluiu caminhada no Centro, ida ao cinema e outras ações.

Resta saber se Jésus e tantos outros idosos de Divinópolis, entregues à precarização do trabalho e que sofrem com a falta de qualidade de vida, serão lembrados na reunião.

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