Mata-mosquitos

Inocêncio Nóbrega 

Navio estadunidense, nos idos de 1840, atraca nos portos brasileiros trazendo uma tripulação infectada por mosquitos rajados, o Stegogomia fasciata.  Rio de Janeiro, que já tinha a peste bubônica e o barbeiro, a mais afetada. 

Nem tanto maravilhosa, na antiga capital da República, composta de pardieiros, cortiços e estábulos, e um único trem, para as idas ao trabalho, só em 1902 morreram 984 pessoas, afetadas pela moléstia. Deprimente situação a tornava, assim, conhecida no mundo.  Urgia reformá-la por completo, encetando-se um programa de restauração, um qual implicava implementar um serviço de saneamento básico, demolição de pardieiros e abertura de ruas.

Nada impossível, o presidente Rodrigues Alves tinha disponível uma certa folga orçamentária; ao lado do prefeito Pereira Passos ofereciam necessária cobertura política para execução da obra. Técnicos e cientistas, no estilo de Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Adolf Lutz, foram contratados. Um trabalho de equipe, que já atuava no Instituto  Manguinhos.  Sobre Oswaldo Cruz, paulista de nascimento, se dispensa adjetivos, indicado pelo próprio Instituto Pasteur, de Paris, onde teve passagem, pesquisador nato, abraçou a causa com extrema responsabilidade e o incontido desejo de ver a epidemia extinta. Tinha, portanto, credenciais para estipular um prazo de três anos, válido para todo o país.

Uma coisa exigia, a obrigatoriedade da vacina. Para esse mister, obteve a assinatura de um Decreto Presidencial. Jornais e os cariocas reagiram. Não se conformaram verem suas casas visitadas por 85 abnegados agentes sanitários. O inimigo era visível, habitava nas moradias, era preciso exterminá-lo. Surge uma campanha de descrédito contra as autoridades, tendo como alvo principal Rodrigues Alves. A reação era administrada por uma Liga, a qual estimulava a “Operação Mata-mosquitos” e a quebra de lampiões, depredação de prédios.  O STF foi assinado, mas um recurso, visando proibir a entrada dos funcionários nas suas residências, foi denegado. Afinal, os mosquitos abandonaram a nossa Velha-Cap.

Vivemos um momento de turbulência administrativa, com um mandatário atuando de forma inversa ao antecessor.  Mais de 170 mil patrícios, sem falarmos nos milhões atingidos pela covid-19, estão ao Deus-dará. Providências, com a descoberta de vacinas, recebem desdenhosas críticas. O natural, para os chefes maiores da Saúde no Brasil. Dessa maneira, que bom a natureza nos trouxesse de volta ao menos Rodrigues Alves e Oswaldo Cruz. Eles ensinariam aos passageiros do Planalto como solucionar o problema da dolorosa doença.

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