Mais que palavras

‘Acordar’

Olá! A vida nem sempre é feita de uma sequência de bons acontecimentos, cenas de alegria, boas oportunidades, sonhos realizados, boas notícias, realizações e prazer. Na verdade, se nossa vida fosse um roteiro de filme ou um livro, encontraríamos cenas de tristeza e dor; capítulos de frustrações e desesperança. A sensação que alimenta nossas almas é a de que vivemos mais momentos ruins que bons. Talvez, em razão da força que as más notícias têm de marcar nossa mente. Muitas vezes, não adiantam as palavras motivacionais. Certamente, em dias difíceis, precisamos mais que palavras.

Em momentos assim nos perguntamos sobre a razão da vida. Perguntamos até mesmo a Deus: “Por que acordar mais uma vez?”. E, estranhamente, continuamos acordando, mesmo sob tais sentimentos; mesmo com essas indagações sem respostas aparentes.

Tal realidade emocional me reporta a uma história, vivida por volta de 19 séculos antes de Cristo, no Oriente Médio, nos dias do grande reino do Egito antigo, na vida de um descendente de um personagem famoso. Na realidade, na vida do neto de Abraão, chamado Jacó (que veio a ser conhecido como Israel. Nome que se dá ao território de seus descendentes, até os dias atuais).

Jacó, homem já idoso, tinha, entre seus filhos, um que chamava sua atenção, por quem alimentava grande amor, chamado José. Há muitas razões para que Jacó tivesse sobre José tal apreço (história longa! Deixo para pesquisa pessoal dos interessados. Encontra-se no livro de Gênesis a partir do capítulo 37).

José era realmente muito amado pelo pai. Amor esse que não era compartilhado por seus irmãos. Pelo contrário, o amor do pai alimentava a revolta dos irmãos contra José.

A revolta ganhou status de raiva; a raiva ganhou qualidade de ódio; o ódio recebeu qualificação de cárcere privado, seguido de tentativa de homicídio. Cheios dessa revolta e ciúme, os irmãos de José primeiramente desejaram matá-lo. Porém, convencidos por um dos irmãos, o venderam a uma caravana de mercadores, como escravo. Para justificar o desaparecimento do filho tão querido ao pai, tomaram suas roupas, rasgaram (simulando um ataque de animal selvagem) e derramaram sangue sobre os trapos. Assim, apresentaram ao velho pai uma falsa história de morte.

Os filhos enciumados não mediram consequências. Não calcularam resultados. Não mensuraram o sofrimento de tal notícia ao pai, já idoso. A história relata com detalhes a dor de Jacó. O autor do livro de Gênesis relata que, ao receber as vestes rasgadas e ensanguentadas do filho, primeiramente analisou a roupa. Triste, concluiu que se tratava das roupas do amado filho. Então, Jacó entra em um profundo sentimento de perda e angústia. Inicia-se um tempo de choro por horas, dias e semanas. Os filhos, que inventaram a cruel história, tentaram (sem sucesso), aliviar a dor de Jacó.

Quem conhece a história sabe que após 21 anos, a dor de Jacó tornou-se alegria. O pai voltou a ver o filho, não só mais maduro, mas também mais poderoso. José tornou-se primeiro-ministro de todo o Egito.

Porém, o que gostaria que víssemos nessa história são os anos que Jacó acordou sem alegria, por imaginar a ausência do filho que amava. Quantas vezes as manhãs não tiveram cor. Quantos dias foram sem sentido algum. Como disse, são momentos de dor, semelhantes a esses, em que desejamos não acordar, não ter mais um dia de saudade, não sofrer, não relembrar. No entanto, os dias chegam. E nós acordamos com os questionamentos.

Jacó acordou quantas manhãs (que não queria)? Penso que em número suficiente para ver que Deus havia protegido seu filho amado, guardado e promovido aquele a quem tanto amava. Tempo suficiente para ver os projetos de Deus por trás da dor e angústia.

Quero que entenda algo importante: viveremos o número de dias que forem necessários para entendermos os planos de Deus para nós e os que amamos. Acordaremos quantas vezes forem necessárias, para o propósito de nossa existência ser revelado.

Então, acorde mais disposto, hoje! Pois cada dia torna-se uma contagem regressiva para o dia da tristeza chegar ao fim.

ileocadiodasilva@yahoo.com

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