MAIS QUE PALAVRAS: TEMPO

Israel Leocádio

Olá! Você já reparou como o tempo passa rápido? Este ano completei 49 anos de vida e farei 25 anos de casamento. Meus pais fizeram 55 anos de casamento. Meus filhos já não são mais crianças. Meus irmãos são avós. Tudo parece ter passado tão rápido! Parece que foi ontem que eu brincava na rua com os colegas. Jogava futebol descalço, fingindo ser um famoso jogador da seleção brasileira. Como o tempo passa!

Tudo o que disse desperta um sentimento comum: só pensamos no tempo quando o tempo passa. Posso chamar isso de saudade. Como disse Mário Quintana: “A saudade é que faz as coisas pararem no tempo”. Em outras palavras: só pensamos no tempo quando percebemos o quanto do tempo perdemos. O pior é que, às vezes, pensamos no tempo quando não há mais tempo. A pergunta é: quanto tempo temos? Acreditamos ter todo o tempo, até que ele se esgota.

Este é o sentimento que percebo na história das irmãs de um amigo de Jesus, chamado Lázaro. O relato da Bíblia é que, chegando Jesus à aldeia chamada Betânia, correu ao encontro de Jesus Marta, irmã de Lázaro. Depois, o Senhor encontrou-se com Maria e foram até o lugar onde haviam sepultado Lázaro (Evangelho de João capítulo 11). A cena é a que costumeiramente encontramos em situação como essa. Choro, dor e saudade. Em momentos assim não temos palavras (o melhor é não tentar criá-las, mesmo que bem-intencionadas).

A razão das lágrimas vai além da perda. Ela atinge o nível mais doloroso – o sentimento de que tudo que precisaríamos naquele momento é um pouco mais de tempo com quem amamos, para dizer-lhe mais uma palavra, dar mais um abraço, mais um beijo, dizer mais uma vez: ‘eu te amo’.  É ali que as pessoas percebem que não têm mais tempo. É ali que se percebe o entendimento de que nos roubaram abruptamente alguém precioso. É ali que se percebe que houve tempo, mas foi desperdiçado. É ali que fica claro que há dois dias que não nos pertencem, o dia de ontem e o dia de amanhã. E o único dia que realmente temos é o hoje. Mas, por alguma razão, nós o gastamos com o que é menos importante. Este sentimento consumia Maria e Marta.

Nessa hora é que pergunto: qual o valor de um abraço? Qual o valor de um beijo? De um carinho? De um tempo? Em um momento em que se discute a importância de uma curtida no Instagram se faz necessário questionar a si mesmo se afeto é mais importante. Em um momento em que se disputam curtidas, deveríamos disputar tempo juntos. A questão não é a quantidade de tempo que gastamos com aqueles que amamos, mas a qualidade desse tempo.

Na hora da despedida, como já disse, não há palavras certas. Porque quem se despede necessita de algo mais que palavras – necessita de tempo. E é aqui que Jesus torna-se incrível. Ele é o único capaz de ofertar mais tempo a Maria e Marta, ressuscitando a Lázaro.

Embora esse acontecimento extraordinário tenha ocorrido tempos atrás em uma vila no distante território de Israel, Jesus ainda tem o mesmo poder a ofertar. Ele disse: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá” (Evangelho de João 11.25,26). Jesus tem o controle do tempo.

Hoje é um bom dia para usar bem o tempo que chamamos de presente.

Conta e Tempo

Deus pede estrita conta de meu tempo. 
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta. 
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta 
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo? 

Para dar minha conta feita a tempo, 
O tempo me foi dado, e não fiz conta, 
Não quis, sobrando tempo, fazer conta, 
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo. 

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta, 
Não gasteis vosso tempo em passatempo. 
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta! 

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo, 
Quando o tempo chegar, de prestar conta 
Chorarão, como eu, o não ter tempo...

 
(Poema de Frei António das Chagas, in 'Antologia Poética')


 

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