Mãe relata caso de violência obstétrica

Maria Tereza Oliveira

Pouco divulgada e, às vezes tratada como tabu, a violência obstétrica é cada vez menos comentada, entretanto, sempre corriqueira, assombra mulheres. Com o intuito de coibi-la, recentemente, foi criada uma lei para combater a violência contra gestantes, parturientes e mulheres em situação de abortamento.

De acordo com uma pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo, divulgada no site da ONG Artemis, cerca de 25% das grávidas no Brasil sofreram com a violência obstétrica.

É considerada violência obstétrica se houve abuso físico e/ou sexual, preconceito, discriminação, não cumprimento dos padrões profissionais de cuidado, mau relacionamento entre as gestantes e os profissionais, além de condições ruins do sistema de saúde.

Em Divinópolis há uma lei que trata sobre o tema. A lei municipal 8.459/ 2018 aborda a implantação de medidas de informação e proteção contra a violência obstétrica e também normatiza a presença de doulas durante partos em Divinópolis.

Relato

A estudante Karoline Luane Moura, 27, relata que, ao dar a luz ao seu primeiro filho, há cinco anos, em Belo Horizonte, foi vítima de violência obstétrica. Hoje, ela mora em Divinópolis.

— Eu sofri durante horas com o médico forçando um parto normal, enquanto eu claramente não estava capacitada para ter um parto natural — lembrou.

De acordo com Karoline, o médico pediu inúmeras vezes para que ela não gritasse e chegou a xingá-la.

— Além de doloroso e cansativo, foi constrangedor. Ele me chamou de escandalosa, então eu tive de sofrer em silêncio — revelou.

A mãe disse que pediu diversas vezes para que fosse feita uma cesariana e que não conseguiria ter um parto normal, mas foi em vão.

— Na época eu romantizei a dor. Achava que o sofrimento validava mais meu amor pelo meu filho. Todas as histórias que eu ouvia sobre partos sempre tinha a frase: “eu quase morri” e as mães sempre se mostravam orgulhosas disso — destacou.

Para Karoline, um dos motivos para serem pouco divulgados é o fato de que muitos casos de violência obstétrica nem são encarados como violação, principalmente por serem corriqueiros.

— Levou anos para eu perceber que fui violada. A ficha só caiu quando eu tive meu segundo filho. Tudo fluiu naturalmente. O médico também tentou primeiro um parto normal, mas não insistiu muito. Ele conversou comigo e me tranquilizou — comparou.

Karoline também enalteceu o comportamento do médico que fez seu segundo parto, pois não se sentiu censurada.

— Por isso eu percebi que não é necessário dor para se mostrar o amor. Meu segundo parto foi tão marcante quanto o primeiro, mas de maneiras diferentes — salientou.

Coibindo a violência

Muitas vezes a pessoa nem se dá conta de que foi vítima de violência obstétrica. Por isso, em maio do ano passado, foi criada uma lei municipal com o intuito de implantar medidas de informação e proteção contra a violência obstétrica, além de normatizar a presença de doulas durante partos.

A lei determina a obrigatoriedade da permissão da presença de doulas durante todo o parto, seja ele natural ou cesariana.

De acordo com a Prefeitura, caso alguma paciente for vítima de algum médico que atue em uma das unidades, pode realizar denuncia na Ouvidoria do Município pelo telefone: 3229-8110.

Nível estadual 

Foi publicada no último sábado, 5, a lei 23.243, que institui a “Semana Estadual do combate à violência obstétrica em Minas”, a ser comemorada anualmente entre os dias 8 e 14 de março.

O Conselho Federal de Medicina emitiu, em 2016, resolução que trata sobre a autonomia da mulher na hora de decidir qual será sua via de parto, de forma a garantir o protagonismo da mulher sobre a gestação e o nascimento de seus bebês.

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