Linguagem dos parênteses

Antônio Oliveira

Abrir parênteses significa interromper para digredir. Uma digressão pode significar fugir ao assunto como pode valer mais que uma aula, quando atende a algo pertinente interposto no discurso. A gente aprende indagando. Não é raro o aluno deixar de perguntar por vergonha, fazendo de conta que já sabe, com receio do que vai dizer o professor ou vão dizer os colegas. Preferível errar na sala de aula, que é o espaço previsível, que errar depois, no exercício da profissão.

Os parênteses desviam o foco para nele intercalar-se um comentário. Aliás, entre parênteses, na vida às vezes não dá para fazer comentários; em vez de dizer palavras, só silêncio, entrelinhas, reticências e muita exclamação.

Lembrando Guerreiro Ramos, homem parentético é aquele que se coloca entre parênteses, antes de definir-se, para optar. A leitura de Ariano Suassuna, quando da criação da “Academia de Letras dos Emparedados do Sertão da Paraíba”, me faz associar parentético com emparedado. Em “A Pedra do Reino”, Suassuna lembra algumas formas de emparedamento. Em conjunto, emparedados porque, com as andanças e lambanças de políticos que o Brasil tem vivido, historicamente, nós todos temos cara de quem, com culpa ou sem culpa, vai sendo emparedado, encostado à parede.

Assimilar os seres na variedade do macrocosmo significa encerrá-los nos parênteses do nosso microcosmo para deles tomar conhecimento. Compare-se o ser humano parentético a alguém que está passando pelo corredor de um hotel. Em cada quarto trancado, um modo próprio de hospedar-se, privativo. E esse hóspede, no corredor, precisa encontrar, com a chave na mão, o próprio espaço. Cada existência humana, por mais longa que seja, é um parêntese aberto no tempo, já fechado ou por fechar.

Entre parênteses, teoricamente, o conteúdo é considerado secundário. Para o mineiro, abrir e fechar parênteses é pôr “cada qual no seu cada qual”. A vida se encarrega de botar as coisas nos eixos.

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