Lembrança de terço puxado

Maria Cândida

Ela vai precisar é mesmo de ficar mais quieta, na cama, dar atenção ao cansado irmão corpo que queria umas folgas na base do recuar para avançar. Daí que era hora de descansar mesmo. Que era hora da cama mesmo, colchões macios nem tanto, lençóis, aqueles ainda do enxoval, bordados com ponto cheio e crivo, daqueles ainda bordados pela dona Joaninha e outras talentosas na agulha. E, além de tudo, carinho especial e até orações. E o travesseiro de paina e colchão sob medida, especial. E tudo de primeira, e a enferma momenta e aproveitando da sorte da doença que a acamara e cobria de dengos e cuidados.

E para ela era televisão ligada o dia inteiro, e o rádio com notícias e canções da moda, e CD e DVD e pen drive, e emocionantes capítulos de novela da hora, e notebook, e celular e parafernália eletrônica, e livros e revistas a mancheias e jornais e tudo para distrair o centro das atenções. E acabava virando quase festa e vantagem estar adoentada. E deitada e bem comportada, era natural abuso e cismares dentre outras elucubrações, pensar em como minha avó xará, Maria Cândida, há anos se comportava e vivia adoentada e rodeada também de amores, mas de escassos recursos. Chás, raiz benta, benzeções escondidas, bênção do padre Libério, novena das comadres.

Era preciso rezar mesmo baixo, e com muita unção. E aí é que a comadre rezadeira e com ares de santa começa a puxar o terço. Era um terço, parte do rosário, de semente da chamada contas das almas que purgavam cheias de fé para cumprir as penas e então voarem para o céu. E o rosário alongava o terço entremeado de cantorias que todos sabiam de cor, “Com minha mãe estarei na santa glória um dia, junto à Virgem Maria no céu triunfarei... No céu, no céu, eu hei de ver Maria... No céu no céu eu hei de vê-la um dia...”.

 E antes da contemplação dos mistérios do terço, o refrão lembrando que muito lindo é o céu onde as virgens estão cantando, lá não há noite nem dia, tudo é um claro dia... No céu, no céu, no céu... E a avó continuando a puxar o terço, e todo mundo acompanhando, contritos e consagrados, mãos postas, joelho no chão e muita fé e unção.

E mais chá e folha e raízes. Parece que me lembro, sim, um pouco deste quadro na zona rural de Cercado de Pitangui, depois Nova Serrana, onde minha mãe fora lecionar depois de nascida em Curral Del Rey e se formar no Instituto de Educação de Minas Gerais, foram buscar meu nome de batismo em homenagem às avós rezadeiras, nunca curandeiras nem benzedeiras e sempre a cantoria de terço puxado pela avó e acompanhado pelas comadres rezadeiras e crianças cochilantes... E o terço rezado e puxado pela avó xará, que saudade!

E a neta saudosa, rodeada de remédios, momenta e momada, e curtindo da cama caprichada, a parafernália eletrônica , saudosa das comadres acompanhantes do terço puxado pela contrita avó Cândida...

 

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