Leitos hospitalares não atendem demanda do Samu

Marília Mesquita

Em 24 de novembro do ano passado, Roberta Araújos, 35 anos, deu à luz a caçula dela, no bairro Belvedere. A urgência da menina em conhecer o mundo fora da barriga da mãe, fez com que o parto acontecesse uma semana antes do previsto e dentro de uma das 24 ambulância de Unidade Básica de Saúde do Serviços de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

Pouco mais de um mês depois, em 26 de dezembro, Patrícia Gouvêa, 20 anos, que mora a um quarteirão de uma das 24 bases descentralizadas do Samu, em Pitangui, levou a filha de dois anos nos braços, na tentativa de salvar a menina que estava desfalecida após se afogar.

Situações de urgência e emergência como estas podem acontecer todos os dias. Mas, há quase sete meses, 1,2 milhão de pessoas das 54 cidades que possuem a cobertura do Consórcio Intermunicipal de Saúde da região Ampliada Oeste (Cis-Urg), parecem ter ganhado um aliado para prestação de socorro médico: Laís Helena Araújo e Manuela Gouvêa estão forte e saudáveis.

— Quando iniciou esse projeto, tínhamos muita clareza de que, se uma vida fosse salva, valeria à pena colocar esse serviço em funcionamento. E já podemos dizer que não foi uma ou duas vidas, mas muitas salvas pela nossa equipe — revela o secretário executivo do Cis-Urg, José Márcio Zanardi.

Socorro

O parto de Roberta foi um dos dois que o Samu realizou em Divinópolis. E está entre os nove ocorridos em 2017, com a assistência de pelo menos um dos 367 profissionais que prestam o serviço, como técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos ou condutor socorrista.

— Era 22h30 quando comecei a sentir dores. Então, quando deu 3h da madrugada meu marido resolveu ligar para o Samu. Eles chegaram e eu já estava em trabalho de parto — lembra

As causas obstétricas são a minoria nos atendimentos prestados, mas ainda assim, em 588 das 21.600 vezes que uma das ambulâncias saiu da base, foi para prestar assistência a uma grávida. As causas clínicas, ou seja, aquelas que não são provocadas por fatores externos, mas por consequência de doenças pré-existentes, como dificuldade para respirar, convulsões e acidentes vasculares, são as necessidades mais comuns daqueles que pedem por socorro e, representam 65% dos atendimentos.

Porém, raros, são os casos em que o chamado acontece logo no portão da base do Samu, como Patrícia fez.

— Minha casa possui dois andares. Quando desci para colocar a fralda na minha bebê de dois meses, a Manuela ficou na parte de cima, como de costume. A piscina da minha casa tem grade, exatamente para evitar qualquer tipo de perigo. Mas, em certo momento, minha sobrinha, de 7 anos, começou a gritar falando que minha filha estava afogando — recorda.

Para ela, foi a adrenalina em precisar fazer alguma coisa que fez com que a lembrança do Samu viesse:

— Peguei minha filha e a única coisa que eu conseguia fazer era gritar por socorro. Ela já estava roxa, deformada e de uma forma que eu jamais quero ver nem ela, nem ninguém na minha vida. Então, me lembrei do Samu e fui na direção, até que a técnica de enfermagem Josiane Lemos pegou ela nos meus braços e no chão, começou a fazer compressões para que ela pudesse viver de novo. Para mim, minha filha já estava morta —completa.

Apelo

De 7 de junho até o dia em que 2017 ficou para trás, o Samu esteve por 5.009 horas servindo. Nos 209 dias do ano que passou, as quatro linhas do 192, receberam 134.434 ligações, uma média de 643 chamadas por dia.

— Mais de 10% da população já entrou em contato com a gente e isso mostra a credibilidade para o atendimento de urgência e emergência, além do resultado positivo do trabalho que está prestes a completar sete meses de funcionamento — destaca José Márcio Zanardi.

Com 36% dos atendimentos direcionados aos idosos e 28% as pessoas entre 20 e 40 anos, estas faixas etárias representam os maiores índices de atendimento. Mas, para o secretário executivo, o grande diferencial é que os profissionais estão preparados para atender quem precisa e por um serviço que é gratuito, funcional e de qualidade.

— Temos uma cobertura que nenhum plano de saúde faz: o de buscar em casa e prestar o atendimento de primeiros socorros. Fazemos ainda um serviço pré-hospitalar que, na medida do possível, os pacientes são levados a um leito que possa garantir sobrevida e a ausência de possíveis sequelas — comenta.

Com uma estimativa inicial de 40 minutos para o tempo-resposta do serviço de socorro, 2018 inicia com uma média de 18 minutos entre o chamado e chegada de uma ambulância ao local solicitado.

— Temos um serviço de prestação à saúde e a implantação é um grande orgulho. O funcionamento é 24h para um atendimento que pertence ao Sistema Único de Saúde — comemora.

Dificultadores

Uma Rede de Resposta Hospitalar para atender imediatamente ao serviço de urgência e emergência do Samu foi construída para que a eficiência do serviço não fosse colocada a prova. Assim 18 cidades, entre elas Divinópolis, como o Hospital São João de Deus, possuem uma “Sala Vermelha” com capacidade tecnológica e profissional para atendimento.

Porém, José Márcio é claro quando diz que a grande dificuldade é dar continuidade médica após a assistência emergencial.

— As “Salas Vermelhas” são suficientes para o nosso sistema, porque elas também são atendimentos pré-hospitalares. O que nós precisamos são leitos de retaguarda para atendimento hospitalar — explica.

Com a previsão de entrega inicial em 2012 e há dois anos com as obras paradas, uma das soluções poderia ser o Hospital Regional, conforme José Márcio.

— Uma das soluções, certamente seria o Hospital Regional, com a efetivação de leitos qualificados, com capacitação para realizar cirurgias e prestar monitoramento de CTI— diz.

Com 29% de ligações consideradas trotes e 9% de deslocamentos de ambulâncias sem atendimento, a mobilização de profissionais para o desserviço a saúde, continua sendo um problema real.

— Os trotes são os mais variados, às vezes é uma música que coloca na linha ou uma criança falando ao telefone, mas o problema é que enquanto alguém está na linha para uma solicitação que não existe, alguém que precisa pode não conseguir uma orientação que poderia ser essencial para salvar alguma vida — esclarece Anna Lúcia Silva, assessora de comunicação do Samu.    

 

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