Lado a Lado

Laiz Soares - Lado a Lado

“Muita gente diz que por trás de um grande homem sempre tem uma grande mulher. Eu sempre digo que não queremos estar atrás, nem à frente. Queremos caminhar lado a lado.” Eu ouvi isso nesta semana em uma conversa com a major Amanda, comandante do Corpo de Bombeiros em Divinópolis e região. Fiquei encantada com a sabedoria e delicadeza com que ela abordou esse tema de mais mulheres no poder. 

Estávamos conversando e ela me disse que no máximo 10% do efetivo do Corpo de Bombeiros em todo o estado era composto por mulheres, o que reflete bem o cenário de mulheres em espaços tradicionalmente masculinos. No Congresso não passa de 15%, nas prefeituras de todo o país também não chega a isso.  Contudo, havia, mesmo assim, mulheres comandantes com cargo de coronéis. Eu me encantei pela educação, lucidez e clareza da major Amanda, foi a primeira vez que tive a oportunidade de conversar com ela e foi muito gratificante e inspirador. 

A parte mais incrível da conversa ainda estava por vir! De repente, a major comenta que seu esposo é quem cuida de sua filha, que ele decidiu focar na criação dela e dar uma pausa na carreira. Eu nunca achei que eu pudesse um dia ouvir uma história dessa em nossa cidade. A única vez que eu conheci uma mulher que me contou que seu marido é quem cuidava dos filhos e da casa e ela quem trabalhava eu estava em um evento com mulheres parlamentares do mundo inteiro no Parlamento Britânico e quem me contou isso foi uma ministra do governo da Alemanha. Eu nunca me esqueci, e pensei: “Nossa, vai levar séculos até isso acontecer no Brasil”.

Uma outra constatação que me marcou muito, foi ao ler o livro da Sheryl Sandberg, COO do Facebook, sobre liderança feminina em que ela diz: “Só alcançaremos a igualdade quando metade dos lares forem comandados por homens e metade dos países e das empresas por mulheres”. Nunca tinha parado para pensar nisso!

O trabalho invisível

As mulheres são as principais responsáveis pelo cuidado dos filhos e dos serviços domésticos no mundo todo. Isso tem até um nome específico, a “economia do cuidado”, na qual há uma carga horária infinita de trabalho não remunerado. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, esse “trabalho invisível” não remunerado, que não se precifica nem conta como ocupação, pesa muito sobre as mulheres, que se dedicam cerca de 20 horas semanais a esse tipo de atividade.

É tão séria essa discussão do trabalho doméstico não remunerado que a Argentina acabou de conseguir uma grande conquista para as mulheres: ser mãe e se dedicar à criação dos filhos será considerado uma profissão no país com direito à aposentadoria. Um passo incrível para o país e para a humanidade! Espero que um dia consigamos pautar essa discussão no nosso país. Hoje nossa situação fiscal não suportaria algo do tipo, mas é preciso que se criem condições econômicas e fiscais para que isso seja possível o quanto antes! 

Uma outra medida urgente no Brasil é a aprovação da licença parental pelo Congresso. Ela permitiria que o casal pudesse dividir como quisesse o período da atual licença-maternidade. Ou seja, seria possível que o pai ou a parceira pudessem dividir a responsabilidade e o tempo dedicado ao cuidado daquele bebê recém-nascido.

 Isso torna possível a opção de se compartilhar o custo social da maternidade, pois, infelizmente, o mercado de trabalho pune as mulheres que são mães ou que têm a possibilidade de ser, deixando de promover e até demitindo mulheres após a maternidade. Uma pesquisa da Catho aponta que 30% das mulheres deixam deliberadamente o trabalho para cuidar dos filhos.

Ser mãe é uma missão linda e o maior desafio que alguém pode encarar. Eu sou filha de uma mãe 100% dedicada à família e à casa, e eu sei bem o quanto o preço é alto. Minha mãe hoje tem tendinite justamente pelo excesso e os anos de trabalho doméstico não remunerado e não tem dado mais conta de limpar a casa sozinha. 

Depois de 30 anos fazendo isso sozinha, hoje é meu pai, com seus 63 anos, quem limpa, passa pano, varre. A minha mãe é privilegiada e vai se aposentar porque meu pai sempre pagou INSS para ela, mas quantas milhões de mães brasileiras na mesma situação dela não terão esse privilégio e essa oportunidade? 

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