Jesus e os samaritanos

Raimundo Bechelaine

Ontem, os padres de toda a Diocese de Divinópolis reuniram-se no Santuário de Nossa Senhora da Conceição, padroeira diocesana, juntamente com dom José Carlos. Lá, na bela e inspiradora paisagem de Conceição do Pará, cada um procurou um colega e fez a sua confissão quaresmal. Pois o clero também precisa do sacramento da misericórdia que o Divino Pai dispensa aos filhos. Este encontro penitencial acontece anualmente, na Quaresma, em preparação para as celebrações pascais. Estas serão afetadas, de alguma forma, neste ano, pela pandemia do coronavírus. No encontro de ontem, este assunto foi tratado entre o bispo e o clero.

Realizada durante o período litúrgico da Quaresma, a Campanha da Fraternidade deste ano inspira-se na parábola do samaritano que teve compaixão do homem caído à beira da estrada, espancado pelos ladrões, e cuidou dele. Ressaltemos que, ao descrever a atitude do samaritano como exemplo, em comparação com a indiferença do sacerdote e do levita, figuras respeitadas no judaísmo, Jesus não o adjetivou de “bom”. Apenas concluiu: “Vai e faze o mesmo”. 

Porém a parábola é tradicionalmente conhecida como “do bom samaritano”. Uma pergunta pode-se colocar. Ao chamarmos de “bom” aquele, estaríamos nós concordando em que os demais samaritanos seriam normalmente maus ou, pelo menos, suspeitos? Assim pensavam os judeus, que excluíam como hereges os habitantes da Samaria.

Domingo passado, o terceiro da Quaresma, leu-se a bela passagem evangélica do encontro de Jesus com a mulher samaritana e, através dela, com os habitantes da cidadezinha de Sicar. Aí não se trata de uma parábola, mas de algo narrado como fato realmente acontecido. Jesus e os discípulos acabaram ficando ali por dois dias, o que não deve ter agradado aos judeus. Ao contrário, certamente tornou-se mais uma acusação contra ele.

Conforme o viam seus críticos, Jesus não era mesmo um “homem de bem”. Não mereceria esta curiosa expressão, atualmente tão prestigiada nos círculos da direita. Andava com os publicanos, as mulheres, os pobres, as prostitutas, era um comilão e beberrão e ainda se hospedava com os samaritanos. Ou seja, seus companheiros eram aqueles que os impregnados da ideologia da meritocracia chamam de “vagabundos”.

À margem dos caminhos da nossa sociedade, os caídos são muitos. Que fazer? A Campanha da Fraternidade, incômoda como o Mestre, convoca-nos à reflexão e à ação. jorababech@gmail.com

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