Jesus e Maria na Sapucaí

Raimundo Bechelaine

As escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo são um grande espetáculo. Sobretudo as do Rio, muito superiores em apuro estético e na apresentação na avenida. Talvez o maior espetáculo do mundo.

Neste ano, a Estação Primeira de Mangueira levará ao Sambódromo um tema que já concentra atenções e acirra debates: nada menos que Jesus. O pregador Galileu denunciou e desafiou a direita religiosa e política de dois mil anos atrás. É reconhecido por alguns bilhões de pessoas como o messias esperado, o salvador da humanidade, o Cristo e Filho de Deus e até o próprio Deus feito homem. A verde e rosa está açulando um vespeiro que ainda nem se refez da provocação do fim de ano, quando um grupo de teatro pôs em cena um Jesus homossexual. Enfim, se a direita pensou que, matando-o na cruz, o estaria eliminando, enganou-se. Ele continua vivo.

O carnavalesco que assina o enredo é Leandro Vieira. Inspirou-se no versículo 8,32 do Evangelho de João: “a verdade vos libertará”.  Cristo será representado pelo ator Henrique Vieira, que se apresenta também como pastor de um ramo da Igreja Batista. (No protestantismo, é fácil se proclamar-se pastor ou pastora e até fundar “igrejas”.) Vinte e tantos pastores o fustigaram com um manifesto de reprovação.

Entretanto Henrique explica-se com argumentação consistente. Está atualizado no campo dos estudos sobre a pesquisa bíblica, o Jesus histórico, as ciências sociais, a história e a teologia do cristianismo. Vale a pena ouvi-lo: “O Jesus da Bíblia anda com os pobres e oprimidos, vence preconceitos, acolhe pessoas marginalizadas. Parece-se mais com o que a Mangueira vai apresentar, do que com aquilo que muitas igrejas apresentam todo domingo. Ao longo da história, muitas vezes o cristianismo não compreendeu bem Jesus. Provavelmente hoje matariam Jesus de novo. Matariam Jesus em nome de Jesus”.  

Nisso, aliás, ele se aproxima de uma cronista espírita. Em janeiro, Ana Cláudia Laurindo escreveu que Jesus foi morto “por causa da mentalidade que expressava, contra as desigualdades, o desamor e as exclusões sociais vigentes em seu tempo; foi vitimado pelo sistema que se apresentava majoritário, formal, conservador e alinhava fé e política como estratégia de poder. Hoje, quem mataria Jesus? Os mesmos indivíduos que execram os homossexuais, os comunistas, os ativistas, os sonhadores, os utópicos, os poetas e artistas”.

A Mangueira desfilará domingo, às onze e trinta da noite. A cantora Alcione será Maria, a mãe. jorababech@gmail.com

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