Jango

O jorn. gaúcho Juremir Machado grafa que João Goulart nasceu a 1º de março de 1918, na Estância Iguariaçá, S. Borja, porém - dizem seus biógrafos - que seu pai, o estancieiro Vicente Rodrigues Goulart, tê-lo-ia registrado como se dera em 1919. Não consegui referências de sua ancestralidade se açoriana, apenas corruptelas do sobrenome, quais de origem flamenga: Goulaert, Goulard. Mais precisamente, João Belchior Marques da Silva Goulart. O “Marques da Silva”, segundo o historiador Dorgival Terceiro Neto, apanhou dessa clã sertaneja da Paraíba, de que era patriarca Benedito Marques da Silva Acauã, advogado e deputado geral, através de seu filho, de idêntico nome. Este, igualmente formado em direito, chegara ao território sul-riograndense, onde alcançou altos cargos no mundo jurídico. Sua esposa tinha ascendência dos Goulart.

Aos 27 anos já percorrera, em lombo de burro, várias partes do Rio G. do Sul, comprando gado para as fazendas de Getúlio Vargas, seu futuro padrinho. Estreitando amizade com o irmão do ex-presidente, Protásio Vargas, envereda-se pela política, filiando-se ao antigo PSD, depois foi para o PTB. Pertencia à classe média-alta, nem por isso desprezara os menos favorecidos e operariado. Elege-se, por duas vezes, vice-presidente da República, a segunda em 1961, assumindo em razão da memorável Campanha da Legalidade, liderada pelo seu cunhado, Leonel Brizola. Os ministros militares haviam vetado sua posse. Prometia fazer um governo voltado para o social e, seguindo carta-programa de seus antecessores, a autodeterminação dos povos. Presidiria as eleições para o Planalto, previstas para 1965, quando o Golpe militar do ano anterior ceifou seu mandato.

Um dos candidatos potenciais ao cargo, Carlos Lacerda, ao tempo governador da Guanabara, pretendia arregimentar seus correligionários da Bahia e Paraíba, saindo de Salvador e nesse sentido agendou uma visita à capital paraibana, a fim de inaugurar um comitê de campanha. “Corvo da Olaria”, assim conhecido, pela pertinaz perseguição aos mendigos cariocas de rua, um declarado agente do imperialismo, para em favor deste desestabilizar a democracia e soberania brasileiras da época.

Março, dia três, dar-se-ia o fatídico encontro, não fora os protestos, arregimentação de forças estudantis, homens de imprensa e do povo, além de operários, juntos na outrora sede da Faculdade de Direito, praça central de João Pessoa. Confiro o episódio, pois eu fiz parte do grupo, que nos custou punições, na ditadura. Ganhamos a batalha, mas perdemos a guerra. Permitam-nos, todavia, fazermos do nosso exemplo homenagens à centenária data.

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