Já conosco o mês de agosto

Augusto Fidelis

Nos países latinos, agosto é o mês de desgraças, infelicidade e mau agouro. Porém, não é todo mundo que dá bola para a má sorte. O músico grego Yanni tem uma canção linda que se chama “The End Of August”, na qual há um maravilhoso solo de violino, verdadeiro enlevo para a alma. Agosto é também o mês da sabedoria popular, cujo Dia do Folclore se celebra no dia 22. Neste dia, em 1846, foi publicado um artigo do arqueólogo inglês William John Thoms, na revista Athenaeum, sugerindo que se chamasse essas antiguidades populares de Folclore, ou seja, sabedoria do povo.

Neste ano, como em todos os outros, destacam-se neste mês as festas em homenagem aos santos padroeiros, em especial a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. Segundo o folclorista Luiz da Câmara Cascudo, esse tipo de comemoração nunca existiu na África, é uma criação nacional. Para tanto, houve a contribuição das culturas europeia e indígena.

Estudiosos do assunto asseguram que as congadas, ou congado, surgiram no Nordeste, particularmente em Pernambuco, na época do Brasil-Colônia, e ainda existem em algumas cidades do interior. Naquela época, senhores de escravos incentivavam a luta simbólica intertribais e de cristãos contra os mouros, a fim de desviar para outras raças o ódio dos negros contra os brancos. Introduzida em Minas Gerais no início do século XVIII, essa manifestação ganhou novos contornos e se transformou em Reinado de Nossa Senhora do Rosário. Chico Rei, em Vila Rica, foi figura central na consolidação desse processo.

Mas isso não aconteceu da noite para o dia. Foi um processo longo, com muitas nuances e participação decisiva da Igreja Católica. Muitos africanos vindos para o Brasil já conheciam a devoção a Nossa Senhora do Rosário, difundida pelo mundo através dos missionários dominicanos. Por isso não foi difícil para os escravos adotá-la como padroeira. No Nordeste, porém, o que restou do congado original se transformou em Maracatu, folguedo de cunho profano, com destaque no carnaval do Recife e de Salvador.

De acordo com a Enciclopédia Larousse Cultural, o tráfico negreiro já acontecia, mas cresceu muito depois do descobrimento da América. Embora não haja dados oficiais, acredita-se que de 13 a 15 milhões de africanos tenham sido trazidos para o Novo Mundo, sendo 3,6 milhões só para o Brasil. O tráfico de negros para o Brasil foi proibido em 1850 e, em 1888, houve a abolição total da escravatura, mas os descendentes dos filhos da África ainda são obrigados à batalha constante de afirmação na sociedade. No entanto, suas festas estão cada vez mais lindas e destacadas.

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