Já aceitei, mas ainda dói

Laiz Soares - Já aceitei, mas ainda dói

Ainda dói ver a situação de quem depende de transporte público em Divinópolis e mofa nos pontos de ônibus. Ainda dói ver os jovens querendo mudar daqui porque não aguentam mais a falta de oportunidades. Dói ver que as pessoas estão desempregadas. Dói saber que tem muita gente passando fome e nenhum auxílio emergencial local foi criado. Dói saber da quantidade de gente sem saneamento básico, sem perspectiva de melhora. Dói saber da falta de água. 

Ainda hoje uma grande amiga minha que nunca saiu daqui me mandou o currículo dela e me pediu pelo amor de Deus para que eu pudesse ajudá-la a arrumar um emprego em BH. Detalhe: ela está empregada e ganhando relativamente bem ‒ o argumento dessa minha amiga é que ela não aguenta mais a cidade. Não aguenta não achar os produtos e alimentos específicos que o médico dela pediu e que não vendem em quase lugar nenhum aqui, enquanto na capital há uma grande oferta de produtos e serviços para todos os gostos e necessidades.  Não aguenta ver o priminho dela e o irmão com deficiência não terem um local apropriado que os aceite para estudar e brincar. Não aguenta ver as amigas com pós-graduação ganhando um salário mínimo. Não aguenta ver que o mercado aqui é muito ruim de oportunidades, paga mal e não valoriza os profissionais porque a demanda por emprego é alta e a oferta é baixa. 

Outra amiga, no mesmo dia, falou que não aguenta mais a mentalidade pequena das pessoas e também está querendo se mudar. Tudo isso não me dói menos depois da eleição, me dói mais, porque eu sei que vai continuar mais ou menos assim, com melhores pontuais e incrementais, e tenho certeza que eu mudaria essa realidade. Já superei há muito a dor de ter visto um sonho não se realizar e hoje vejo que Deus sabe o que faz, e a minha vida pessoal e profissional está muito mais confortável e prazerosa do que estaria se eu estivesse no cargo de prefeita. Tenho total autonomia para conduzir meus horários como consultora, faço viagens incríveis a trabalho, pela primeira vez na minha vida tenho tempo para tomar café da tarde com a minha mãe, fazer academia, cuidar de mim, coisa que fiquei os últimos dez anos sem fazer porque trabalhava sem parar. 

Deus me deu uma oportunidade de ter uma qualidade de vida que eu nunca tive, curtindo as pessoas que eu mais amo na vida ‒ meus pais, familiares e amigos. É como se eu estivesse há quase dois anos “de férias” mesmo estando trabalhando muito, já que eu só conseguia curtir essas pessoas que tanto amo e moram aqui nas minhas raras férias. Ainda levo susto quando me pego, no meio da semana, almoçando com meus pais, tomando café, indo com eles ao mercado. A ficha ainda não caiu, de tão bom que acho. Doeu muito ter que ficar longe deles por dez  anos para conseguir ter grandes oportunidades na minha carreira, e agora estou curando essas feridas e matando a saudade, correndo atrás do tempo para compensar minha ausência. 

Em todos os aspectos da minha vida ‒ pessoal e profissional ‒, estou colhendo frutos lindos da experiência que tive ano passado nas eleições. Estou transferindo meu conhecimento que aprendi aqui para várias lideranças da cidade e do país todo ‒ muita gente tem esperança nos meus projetos e sempre me pede para seguir em frente. O que eu não superei é a dor de saber o quanto tudo poderia ser diferente e o que as pessoas vão perder em termos de oportunidades e qualidade de vida (nunca conseguirão ter a real dimensão) porque nós, aqueles que têm uma mentalidade grande para a cidade, perdemos a eleição. Não fui eu, fomos nós. Entenda, prefeito: quem perdeu foram os sonhos que as pessoas sonharam junto comigo ‒ eu, Laiz, pessoa física, não perdi nada, pelo contrário. A eleição para mim não era um projeto pessoal. Eu não entrei na disputa para dar uma vida melhor para minha família, ajudar minha irmã e nem ganhar um salário distante das minhas possibilidades profissionais e irreal para minha qualificação, como é o caso da vossa senhoria (falaram que eu preciso ser mais elegante nas minhas pontuações, pois assim o farei). 

Eu entrei para fazer história, deixar um legado, revolucionar essa cidade, quebrar paradigmas, mudar essa mentalidade pequena, atrasada e machista que vosmecê (quem já viu novela de época vai entender) tão bem representa. Eu entrei na disputa para mostrar para as pessoas que elas podem sonhar e ser maiores do que pensam que são, mostrar que Divinópolis pode mais e está se contentando com pouco, inspirar dezenas de jovens e mulheres a voltar a acreditar na política e nos seus próprios sonhos! Entrei para ser exemplo para as meninas e mostrar para elas que ser mulher não as limita, que elas podem fazer o que quiser, inclusive ir para a política. E isso tudo eu já estou fazendo sem mandato, coisa que você não está conseguindo, pelo menos não ainda, com ele. 

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