Homenagem ao Prof. Waine

Raimundo Bechelaine

Neste período de forçado isolamento, que nos afeta a todos, a ruptura de uma existência toca-nos ainda mais profundamente. Deixa-nos um imenso vazio interior. É assim que nos chega a notícia da partida sem retorno do professor Waine Silva.

"Filosofar é aprender a morrer." A frase é de Michel de Montaigne, filósofo francês pouco conhecido do grande público, e está no título do capítulo vinte do Livro I dos "Ensaios", sua obra mais lida e estudada nos meios acadêmicos. "Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte", assim começa o texto, que oferece longas e eruditas reflexões sobre a vida e a morte. Aliás, o tema já começa a ser tratado no capítulo dezenove, o qual traz um título longo e também atraente: "Somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou infelizes em vida". No capítulo terceiro do Livro II, o assunto retorna. 

Entretanto, apesar de tanta reflexão a respeito da morte, parece-nos que o filósofo não aprendeu a lidar bem com ela. Pois Montaigne jamais se consolou da morte de um grande amigo, falecido prematuramente. Quando estudantes em Toulouse, Michel de Montaigne e Etienne de La Boéthie se aproximaram por uma sincera amizade. Tinham muitas afinidades e tornaram-se companheiros nos estudos, nas discussões de ideias e até nas farras estudantis. Com apenas 23 anos de idade, Boéthie escreveu o famoso "Discurso sobre a Servidão Voluntária". Entretanto, veio a falecer bem moço ainda, quase dez anos depois. Ao lado de seu leito estavam sua esposa e a filha, um tio e Montaigne. A este, Boéthie deixou sua biblioteca e escritos. Até o fim de sua vida, Michel Eyquem de Montaigne lamentaria a perda do amigo. A seu respeito escreveu páginas comoventes.

Em suas reuniões semanais, agora pela internet, a Associação dos Graduados e Estudiosos de Filosofia (Agefil) está fazendo a leitura comentada do "Discurso sobre a Servidão Voluntária". Este estudo vem despertando grande interesse em todos os participantes, pois continua atual, cinco séculos depois. Eis que, inesperadamente, a morte veio roubar dos agefilianos um jovem e querido amigo, o prof. Waine Silva. Dedicado ao estudo, à pesquisa e ao magistério, era um respeitado professor de história, no ensino público de Divinópolis, admirado por alunos e colegas. Responsabilidade, gentileza, profissionalismo, equilíbrio e competência eram algumas de suas qualidades. Todos lamentam sua partida imprevista.

Nas conferências mensalmente promovidas pela Agefil, na "Terça Filosófica", ele era uma presença constante e enriquecedora. Ficava patente o seu interesse em crescer sempre mais nos vários campos do conhecimento. Sentia-se que ele amava o trabalho ao qual dedicava sua vida e seus esforços. Esta é a imagem que dele guardarão os agefilianos, os alunos e os colegas de profissão. Em nome da entidade, será oficiada uma missa de 7º dia em sua memória. Foi uma convivência valiosa, que todos desejaríamos preservar por muito tempo ainda. 

jorababech@gmail.com

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