Hoje celebra-se o centenário de nascimento de Zé Capitão

Pioneiro é considerado a alma e o coração do rodeio em Divinópolis

 

 

Jorge Guimarães

Natural de Serra Negra, à época município de Itapecerica, José Gontijo da Silva, o Zé Capitão, veio ainda criança para Divinópolis, onde deu continuidade aos negócios de sua família, nos anos 40. Morto aos 61 anos em 21 de setembro de 1978 – por ironia do destino, mesma data em que nasceu José Gontijo da Silva – completaria 100 anos hoje.

Não caberia neste espaço a história completa de Zé Capitão. Mas um registro é obrigatório: sempre foi um homem voltado ao agronegócio. A “Divinaexpo” começou com a tropa famosa do Zé, que percorria o Brasil, inclusive cedendo touros a Barretos (hoje considerada como principal festa de peão do Brasil) e um capítulo à parte na história dele.

Vereador eleito em dois mandatos, em 1958 e 1962, Zé Capitão era filiado à então União Democrática Nacional (UDN), legenda que também abrigava Alvimar Mourão, Sebastião Gomes Guimarães e outros nomes importantes. Naquela época os confrontos partidários eram com o Partido Social Democrático (PSD), que tinha em suas fileiras nomes como de Manoel Valinhas, Armando Nogueira, Oribes Batista Leite, José Jaime, Jovelino Rabelo e outros que só trouxeram o progresso para Divinópolis. 

Zé Capitão também tinha livre trânsito pelos corredores da praça da Liberdade, nos governos de Milton Campos e Magalhães Pinto. Com a habilidade de fazer amizades, até subiu em palanque para ficar ao lado de Tancredo Neves, que era filiado ao Partido Social Democrático (PSD).         

Barretos 

A “Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos” é um capítulo à parte na caminhada de vida de Zé Capitão. No dia 15 de julho de 1955 um grupo formado por 20 jovens sentados a mesa de bar fundou "Os Independentes" na cidade de Barretos, em São Paulo. Da união do grupo foi realizada a 1ª “Festa do Peão”, em 1956, com dois dias de apresentações de catira, danças do folclore brasileiro, queima do alho, dentre outras atividades.

As primeiras festas eram realizadas em circos alugados. Nesta década o rodeio substituía as cavalhadas que simbolizavam a luta dos cristãos contra os mouros e era a atração principal da festa que empolgava os espectadores que se identificavam com o evento, que mistura esporte e o trabalho diário nas fazendas.

Diante de sucesso e com o reconhecimento nacional como “tropa braba e puladeira”, Zé Capitão foi convidado a participar do grupo “Os Independentes” e integrou com sua tropa a primeira edição da festa em Barretos e de outras tantas.

Paralelamente ao engajamento pelo agronegócio em Divinópolis, ele foi um dos fundadores da Cooperativa Agropecuária e do Sindicato Rural do município.

Ousado 

Para o atual presidente do sindicato, Irajá Nogueira, Zé Capitão foi uma pessoa ímpar, responsável pelo rodeio em Divinópolis, na região e no Brasil.

— Zé Capitão foi uma pessoa muito ousada para a época dele, quando começou o rodeio. Foi um dos pioneiros no Brasil. Assim nascia Barretos, berço da festa, no período em que ele levava os animais para participar das primeiras edições da hoje “Festa do Peão de Boiadeiro”. Até hoje o nome de Zé Capitão é reverenciado em Barretos — diz Irajá.

Ele acrescenta que Zé Capitão desbravou e fez a coisa acontecer. Se o rodeio hoje é uma potência, deve muito a ele pelo pioneirismo e ousadia também em desfilar com vestimentas típicas, lenço no pescoço, bota e cinturão.

Homenagem 

O centenário comemorado hoje teve início com o lançamento da revista “Agora Rural”. A publicação apresentou a força do personagem aos mais jovens e relembrou aos antigos uma história que emocionou a familiares e outras pessoas que o conheceram.

Filhos 

A reportagem do Agora esteve ontem com quatro dos sete filhos de Zé do Capitão e ouviu testemunhos e emocionantes.  

— Papai ainda representa um dos melhores exemplos de vida que já tive. Era preocupado com o meio rural num todo. Um exemplo a ser seguido – disse Ronaldo Mourão Gontijo.

Para Rosenilce Mourão, a Chèrie, o pai foi uma âncora no meio familiar ao oferecer firmeza e sustentação a todos.  

— Muito bravo, mas ao mesmo tempo afetuoso, não muito expressivo, mas de personalidade forte. Trabalhador, empreendedor e humilde. Ele sempre foi muito cuidadoso com todos nós. Tratava a gente com muito carinho e atenção — recorda.

Rosenwald também ressalta como o pai foi marcante.

— Ele sempre cultivou amizades e sua vida sempre foi pautada pela honestidade e respeito aos seus semelhantes. Ensinamento que transmitia a todos que conviviam com ele. Um sentimento que marcou foi o de que nunca abriu mão do amor à família. Apesar de rigoroso, tinha um coração de manteiga – relata.

Já Rosângela realça o lado trabalhador.

— Para mim o que marcou meu pai foi o trabalho. Ele era um homem super trabalhador e, sobretudo, honesto. Foi uma pessoa que viveu com amor. Talvez o sucesso dele seja isso, porque amor é a coisa mais importante na vida — lembra.

Referência 

Um homem que viveu no campo e, ao mesmo tempo, zelava pelas boas tradições que são parte da cultura mineira, como as grandes festas em Divinópolis. Estes eram alguns dos muitos aspectos do pioneirismo do rodeio no país.

— Meu saudoso sogro Zé Capitão foi daqueles homens que tiveram a capacidade de se transformar em uma referência tanto para pessoas simples, do campo, trabalhadores e produtores rurais como pessoas das grandes cidades. Levou com muita dignidade o nome de Divinópolis para praticamente todas as regiões de Minas e para o Brasil ao ser um dos pioneiros de Barretos, um dos primeiros a fazer rodeio profissional no Brasil. E tudo pela paixão, pela atividade do que com fins lucrativos — frisa Domingos Sávio, lembrando o empreendedor realçando o privilégio de ver de perto, conviver com as pessoas simples do campo, a admiração, respeito e a lembrança que se mantém viva do Zé Capitão.

— Como deputado federal, continuo ouvindo em várias partes do Brasil e em toda Minas Gerais uma referência muito saudável de respeito e admiração à figura que foi Zé Capitão. Pra mim é um privilégio ainda maior pelo fato de ter me casado com a sua filha Chèrie e ter convivido com sua família. Além do testemunho, também procuro de alguma maneira seguir o exemplo deixado por ele, de valorizar quem vive no campo e, ao mesmo tempo, zelar pelas boas tradições, que são parte da cultura mineira, como as grandes festas em Divinópolis, que hoje são exemplos. Sem dúvida Zé Capitão contribuiu muito para isso e até hoje ele é festejado em Barretos – disse.

 

 

 

 

Romilda Mourão Gontijo

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