Hipocrisia burguesa

Ano novo, vida nova. Aberta a temporada de planejamento. Nesses planos de mudanças, podem estar incluídos mudar de casa, começar uma dieta, trocar ou comprar um carro, ou ainda começar um curso. Mas é também nesta época de planejamento, de esperança, em que se acredita que um novo ano será melhor que o anterior, que os casos de dengue e outras mazelas começam a aumentar no país. E isso é assim mesmo, entra ano e sai ano e é a mesmíssima coisa. Não tem um janeiro sequer em que os órgãos públicos não intensificam suas ações que têm o mesmo objetivo: implorar que a população cuide de seus quintais e elimine os focos do mosquito Aedes aegypti. Não tem um início de ano em que as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), e os prontos-socorros do Brasil não ficam lotados com pacientes com os mesmos sintomas: febre alta, dores musculares, dores ao movimentar os olhos, falta de apetite, dor de cabeça, manchas vermelhas pelo corpo e outros sinais. E olha que o foco em Minas Gerais nestes primeiros dias do ano é intoxicação ocasionada pela cerveja Belorizontina.

Isso acontece pelo simples fato de, neste planejamento anual que milhares de pessoas fazem todos os anos, não estar incluído: mudar de postura como cidadão. Queremos e exigimos mudanças, mas não queremos mudar. Somos contra a corrupção, reclamos dela, mas permanecemos com as mesmas atitudes arcaicas. Exigimos nossos direitos, mas não cumprimos os nossos deveres. Esquecemo-nos que, para sermos cidadãos, é preciso, antes de tudo, responsabilidade com si próprio e com os outros. É necessário que tenhamos consciência de como as nossas ações refletem na coletividade. Adotamos aquele velho discurso do “eu pago imposto”, que não nos leva a lugar algum, e apenas andamos em círculos. Afinal, não é porque pagamos impostos que não devemos limpar o nosso quintal, eliminar os focos do mosquito e, assim, ajudar a evitar uma epidemia. Não é porque eu pagou o varredor de rua, que tenho que entupir as vias públicas de lixo. Cadê a minha consciência de cidadão? Por que não me coloco no lugar do outro sempre que deixo de cumprir minhas obrigações e obedecer regras.

Ano novo, velho problema. A verdade é que as nossas irresponsabilidades já começam a refletir no sistema de saúde público e também no privado. Os hospitais já começam a ter suas habituais filas de pacientes com sintomas de dengue e, claro, alguns com complicações, que passam pelo “vale da sombra da morte” e muitas vezes se arrependem por não ter tirado 10 minutos de seu dia na semana para conferir o seu quintal ou se revoltam por terem um vizinho desleixado. Isso sem falar nas crianças que são tiradas de seus pais, seus irmãos, suas famílias, por causa de uma doença que poderia ter sido evitada, caso o povo exercesse de verdade e a sua cidadania que tanto cobram. Afinal, o ano é novo, mas o problema é velho, e ele poderia ser mudado se não fôssemos tão hipócritas e não exigíssemos mudanças quando não temos a intenção de mudar.

Tornamo-nos experts em sentar de frente nossas telas e fazer os nossos discursos moralistas, mas que não passam de hipocrisia burguesa. Os dados estão aí para mostrar. Reclamamos do sistema público, da corrupção, mas, a cada ano, os números de casos de dengue, zika e chikungunya aumentam, assim como os registros de morte. Exigimos dos nossos políticos um comportamento que não temos. Queremos mudança, mas não queremos mudar. E o problema continua.

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