Grito

Rodrigo Dias

Quem grita demonstra desespero. Quer ser notado, distinguido dos comuns. Nem todo grito é ordem entendida. Pode, sim, ser entendido como medo do receptor da coerção. Nem todo grito é alto, mas todos têm um princípio comum: o de incomodar.

O grito é um dos radicais da emoção. Condensa, nele, uma carga de sentidos que ganham entendimentos diferentes, seja pelo ponto de vista do autor ou de quem, por vezes, atônito, ouve.

Numa sociedade em que os argumentos se fragilizam até virar pó, muitos entendem que o grito é o sinônimo da razão. Os iludidos enchem os pulmões e gritam aos quatro cantos. Estendendo suas meias verdades, ou nada, aos outros.

Esse grito é sinal de fraqueza e não soma. Pode até perdurar por algum tempo, mas logo perde o eco e deixa de ressoar. Quanto mais atento o ouvido, mais protegido está o indivíduo desses incautos.

Concordo, há de se ouvir a minoria que grita e a ela reservar o direito devido. O que não se pode é fazer desse grito o apelo de uma porção maior que, em detrimento dos que falam mais alto, fica desguarnecida por uma sociedade caduca que aprendeu a ouvir só os que gritam.

Pois é, e os de todos os dias que estão aí, roubados? Deles, além da vontade do sonho, tomaram-lhe o direito ao grito. Esses só gemem e quase sempre são ignorados. Somam-se à paisagem cotidiana e desde que não se tornem pedra no caminho... Tudo certo.

Antes de falar, qualquer homem grita pelo berreiro do choro e se posiciona das suas vontades. Ao admirar a joia recebida, a mulher apaixonada grita. Até para dar à luz a mãe, terna, grita.

De tão importante, o grito foi eternizado pelo pintor norueguês Edvard Munch. A pintura para muitos é bizarra. O grito retratado por Munch é um misto de clamor e terror, mas ele está ali: identificado pelas suas formas.

As ruas também gritam. Nelas há expressões verdadeiras e em outras ressoam gritos fingidos. Mais uma vez, o ouvido do receptor deve ficar atento e distinguir os tons e as intenções do grito.

E essa última agora, de gritar pela volta do militarismo ‒ num país que ainda constrói sua democracia, que é falha, sim, mas ainda apresenta suas vantagens se comparada ao antigo regime ‒, é uma atitude reacionária. Grito, para mim, sem sentido.

Ir para rua gritar por um golpe militar fere, como espada que transpassa a carne, a memória dos que morreram e lutaram para que muitos que vão à rua hoje pudessem ter direito ao seu grito. Sua expressão.

O grito incomoda, às vezes não pela sua intensidade, mas pela hora em que ocorre.

jornalistarodrigodias@bol.com.br

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