Gente morrendo por linha de pipa: até quando?

Ricardo Welbert

Um motociclista entregador de gás morreu depois de ser atingido por uma linha de pipa neste domingo, 24, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Segundo reportagem publicada no “Super Notícia”, Igor Cesar Leal, de 38 anos, ainda tinha cerca de cinco entregas para fazer até encerrar o expediente e teve o pescoço cortado pelo que chamam de “linha chilena”, que é feita de cola de madeira e óxido de alumínio e corta quatro vezes mais do que o tradicional cerol à base de cacos de vidro.

De acordo com a Polícia Militar, a vítima foi atingida no pescoço e morreu na hora. O suspeito de usar a linha não foi encontrado. Segundo testemunhas, poucos minutos após o acidente, o cordão ensanguentado foi retirado do local, prejudicando a investigação do crime.

Uma das testemunhas disse que tudo aconteceu muito rápido. Igor pilotava a moto quando foi atingido pela linha e o sangue começou a jorrar. A foto acima mostra respingos no retrovisor.

Além do risco aos motociclistas, as linhas com cerol ou essa tal “linha chilena” também ameaçam pedestres e ciclistas. Segundo o Hospital João 23, em Belo Horizonte, de janeiro a maio deste ano foram dez vítimas socorridas na unidade. Já em 2017, 25 pessoas deram entrada pelo mesmo motivo. Em 2016, 33. Os dados se referem a vítimas que foram feridas mais gravemente. Casos mais leves costumam ser atendidos em outros hospitais.

Usar essas linhas cortantes é crime previsto no artigo 132 do Código Penal, que pune com pena de três meses a um ano de prisão quem expõe a vida de outra pessoa a perigo. Adolescentes flagrados na prática ilegal são levados a uma delegacia de Polícia Civil e liberados na presença dos pais ou responsáveis. Além disso, a lei 14.349, de julho de 2002, prevê multa de até R$ 1,5 mil para quem portar linha com cerol ou chilena.

Tão absurda quanto colocar a vida dos outros em risco é a pena máxima prevista para esses assassinos. Neste caso de Contagem, a vida de um trabalhador foi perdida e a pena prevista é de absurdos três meses a um ano de prisão. 

Quanto vale a vida de uma pessoa? Um ano e três meses (no máximo) é um tempo de pena coerente com quem tira a vida de alguém? 

Além disso, não dá pra punir só quem usa essas linhas chilenas. As polícias precisam investigar quem produz e quem vende essas armas e prender esses bandidos também (mesmo que por pouco tempo, porque o nosso Código Penal parece ter sido escrito para beneficiar criminosos). Qualquer um de nós pode ser a próxima vítima dessa brincadeira assassina. 

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