Ganhos e perdas

A vida! O que é a vida? Acredito que eu não estaria errado em compará-la a um caminhão carregado de raridades, que a gente dirige numa estrada esburacada, numa longa viagem que não se sabe onde nem quando se deve chegar. Ao longo do trajeto, volta e meia acontecem os baques, e, nesses solavancos, preciosidades vão se perdendo pelo caminho. A gente olha pelo retrovisor, se assusta, se desespera, chora, grita, pede socorro, mas a viagem não pode ser interrompida. O que caiu deve ficar para trás.

Ainda ontem uma saudade cortante invadiu a minh’alma, porque teimei em conferir a minha bagagem, bastante desfalcada. Nem viajei tanto assim e já perdi pai, mãe, irmãos, muitos amigos, tantos amores. A cada perda, a sensação de que faltarão forças para prosseguir, embora seja proibido parar. Todas as vezes que a nostalgia manda lembranças, não me resta alternativa senão lançar um olhar comprido no horizonte em busca de algo que me motive a seguir adiante, pois não adianta volver o olhar para o que me fora arrancado.

George Bernard Shaw compara a vida a uma pedra de amolar; “desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos”. Isso é verdade à medida que a gente aprende a enfrentar as situações, a resolver os problemas, a entender que, mesmo em meio ao caos, existe solução. Mas a dureza da pedra também desgasta aquilo que afia. Ao longo do tempo, aprendi a lidar com os dessabores, com as forças ocultas que manipulam o alheio a seu bel-prazer. No entanto, perdas irreparáveis enfraqueceram o aço que me molda, tornando-me emocionalmente mais frágil do que o desejável.

Millôr Fernandes tem outra opinião. Para ele, viver é desenhar sem borracha. Assim, o artista fica obrigado a pensar cada rabisco, não se pode errar nenhum traço, não há como apagar. Uma plateia anônima e atenta observa o desenhista, tenta advinhar-lhe as intenções. O desenho deve sair conforme a expectativa. Qualquer distração torna-se pecado mortal, as críticas são impiedosas e o julgamento, fatal. Viver é desenhar em público, é construir uma obra para ser admirada ou rejeitada segundo as normas da sociedade.

Disse Platão, no entanto, que “uma vida não questionada não merece ser vivida”. Talvez seja por isso que, no entendimento de Oscar Wilde, “a vida é muito importante para ser levada a sério”. Pensando bem, por todas estas razões, vou enxugar as minhas lágrima e seguir adiante, mesmo que exista tristeza pelos amores perdidos, porque a vida é o bem maior e outros amores hei de encontrar, mesmo que sejam diferentes dos amores perdidos. Por que hei de perder tempo em lamúrias, se o melhor é viver e amar enquanto se pode amar? Vou levar ao forno a receita de Mário Quintana: “Tão bom morrer de amor e continuar vivendo”.

augustofidelis1@gmail.com

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