Finados

Amnysinho Rachid

O dia dos fiéis defuntos ou dia dos mortos é celebrado pela igreja em 2 de novembro.

Desde o século ll, alguns cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires. Já no século V, a igreja dedicava um dia do ano para rezar para todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém se lembrava.

Na minha infância, a tradição foi marcada como ponto forte. A igreja dominava a maioria da população, fazendo com que os dias santos e de reserva fossem respeitados.

Me lembro que neste dia não se escutava música e a cidade tinha aquela atmosfera fúnebre, todo mundo ou a maioria se preparava para visitar o cemitério.

Lembro que eu e meu primo e parceiro nas aventuras, Gilberto, subíamos para o cemitério do Centro bem cedo, adorávamos a movimentação ‒ na porta, aquele tanto de vendedores de flores, velas, vasos, comidas e bebidas, uma confusão total.

Rodávamos o cemitério inteiro e sabíamos tudo de lá, os túmulos das famílias tradicionais, com muito mármore e peças enormes de santos e vasos, correntes e jardins. Neste dia, estavam todos limpos e brilhando, parecia um concurso para eleger o mais suntuoso.

O mais interessante era que sabíamos as histórias dos que estavam enterrados. Primeiro, visitávamos o túmulo do meu avô, sabíamos até qual parente tinha passado, deixando flores. Depois, percorríamos os outros túmulos. Tinha um senhor bem velho de terno e gravata pretos, com o cabelo branco que ficava sentado numa cadeira o dia inteiro na frente do túmulo da esposa. Dizem que foi péssimo para ela e olhávamos para ele com a cara ruim. Tinha aquela menina que morreu novinha e dizem fazer milagres, tinha a viúva de negro que ficava também limpando e arrumando o túmulo e chorando. Passávamos olhando as fotos em cada túmulo e, no fim, ficávamos como guias. Sabíamos onde as pessoas podiam pegar água e onde ficava o coveiro, a capela. Enfim, conhecíamos a fundo o cemitério.

Em 2020, o finados foi bem diferente. As pessoas tiveram que agendar com antecedência para ter acesso aos cemitérios. O cemitério do Centro ainda tem um grave problema, parte dos túmulos que desabaram com a construção de um prédio ao lado ainda está coberto com lonas e as visitas estão proibidas.

Neste dia, todos fazem uma oração por todos que já partiram e que bem ou não fizeram parte da sua história.

E continuamos aqui, torcendo e tendo certeza de dias melhores… TOK EMPREENDIMENTOS,  rua Cristal, 120, Centro. 

achidmendes@hotmail.com

                        

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