Finados

Antônio de Oliveira

 

Muitos comemoram o Dia de Finados fazendo uma visita ao cemitério. Sinal de que os que se foram ainda continuam presentes na nossa memória: eis o mistério da alma do mundo. Para Augusto Comte, os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos.

De acordo com Ernesto Sabato, “a razão não serve para a existência”. Segundo esse argentino, por sinal doutor em Física, a alma humana, em sua profundidade, “no está para esas cosas”. Está para a sensibilidade. Por sua vez, em seu diário, em forma de cadernos, e na sua maneira de contar os dias, José Saramago comenta: “Assim é a vida: acontecem às vezes coisas maravilhosas ao nosso lado (que há de mais maravilhoso que o amor de uma criança por um adulto?) e não chegamos a aperceber-nos delas, porque pertencem, também elas, a outro mundo, o dos sentimentos mais profundos, a que a razão não sabe nem pode chegar”.

Outro mundo!... Essa a imagem que me vem à mente no Dia de Finados. Como será o além? Tantas e inúmeras previsões e pré-visões. Mas, coerentemente com a proposta desta reflexão, prefiro meditar sobre o aquém, do lado de cá em direção aldilà. “Al di làdellecosepiù belle / Al di làdellestelle”. Coisas mais belas, eis o recado da canção. Sinal de que aldilà as coisas devem ser mais belas. Eis o epitáfio do túmulo de Frank Sinatra: “The bestisyetto come”, o melhor ainda está por vir. Por ora, eu fico com a pureza da resposta das crianças, de Saramago e de Gonzaguinha: é a vida, é bonita, e é bonita.

Finados. Na cidade dos mortos, uns se ajoelham em piedosa oração, outros murmuram ladainhas, ainda outros permanecem à distância fitando o horizonte de cruzes. Os finados nos dão conta de que Shakespeare tinha razão em admitir haver mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. Entre o céu e a terra dos mortos. Entre o murmúrio e a prece. Entre o murmúrio e o silêncio. Ante a inelutável. Com o maior respeito.

antonioliveira2011@live.com

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