Fiel trabalhou de graça para pastor por quatro meses

Jesiel Júnior teria afirmado em pregação que pela fé comprou um sítio por R$ 2, porém enganou o proprietário

Matheus Augusto

A 1ª Delegacia Regional da Polícia Civil (PC) em Divinópolis continua colhendo depoimentos de supostas vítimas do pastor Jesiel Júnior Costa Oliveira. Ele, que congregava na igreja Batista Filadélfia, no bairro Porto Velho, é investigado por sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, estelionato e falsidade ideológica. Em um dos relatos, uma das pessoas prejudicadas diz ter trabalhado para o pastor, gratuitamente, por cerca de quatro meses, acreditando que formaria sociedade com ele.

Jesiel, sócio de uma empresa de recursos de multas em Divinópolis, oferecia às vítimas do golpe uma participação em sociedade ou o direito de abrir filiais de seu empreendimento, mas tudo não passava de um golpe.

O pastor foi preso, preventivamente, nesta terça-feira, 8. Durante a operação, os agentes apreenderam máquinas de cartão, computadores, notebooks, dinheiro venezuelano e euros. Ele também era diretor de uma igreja em Belo Horizonte, que tem sede em Caracas, na Venezuela.  

Investigado desde abril, o pastor teria causado um prejuízo de R$ 300 mil, segundo estimativas da PC.

Trabalho gratuito

O Agora teve acesso ao depoimento de uma das vítimas que, por motivos de segurança, não será identificada. Uma delas contou que, em um de seus testemunhos, o pastor pedia aos fiéis que tivessem fé, pois Deus os ajudaria se assim procedessem. Jesiel ainda teria relatado a compra de uma propriedade na zona rural de Água Limpa por apenas R$ 2. No entanto, as informações apontam que o valor real do imóvel é de R$ 200 mil e o pastor que teria pagado R$ 5 mil, prometendo buscar mais R$ 50 mil, mas nunca cumpriu e ficou com o sítio. Já existe um processo em andamento para reverter a venda.

Outra suposta vítima do golpe explicou ter conhecido o pastor através da recomendação de um membro da igreja Batista Filadélfia, após precisar de auxílio jurídico em um caso. Ao conhecer Jesiel pessoalmente, ele teria se apresentado como advogado e o informado sobre o seu escritório, para que a pessoa pudesse apresentar sua situação.

A partir de então, o pastor começou a manipular a vítima. Segundo seu relato, Jesiel teria passado a assediá-la com promessas de prosperidade, alegando que tinha uma ótima oportunidade para ela se livrar dos problemas financeiros, uma vez que estava desempregada. O pastor afirmava ter conversado com Deus e que Ele havia dito que a vítima seria abençoada em breve e, por isso, deveria servi-lo. Atraída pela proposta e pelas falas, ela aceitou a oferta.

A oportunidade consistia em cuidar de galinhas na propriedade do pastor, panfletar em Belo Horizonte, Itaúna, Nova Serrana, São Paulo e Ipatinga, e servir como motorista, mesmo não tendo carteira de habilitação tipo B – Jesiel assegurava que nada aconteceria. Todo o trabalho não foi remunerado e teria durado cerca de quatro meses.  

Segundo ela, a explicação para o trabalho ser gratuito se devia ao fato de que eles [vítima e pastor] seriam sócios. Como para a formação da sociedade Jesiel exigia um investimento de R$ 5 mil, e a vítima estava desempregada e não tinha esse valor, ela não seria remunerada, como parte do pagamento pela futura parceria no empreendimento.

Durante esse período, ela diz ter recebido apenas café da manhã e almoço. A vítima alega ainda quase ter perdido sua casa, teve a luz do imóvel cortada, e ver seu casamento ruir. A situação ainda piorou: ela incentivou seu irmão a investir no negócio de multas, que também caiu no golpe. Por fim, a vítima também declara que os familiares a encaram com desconfiança.

Em um determinado momento, ela assinou documentos em São Paulo com outras duas pessoas. O material também foi reconhecido em firma. A informação era de que o contrato concretizava a sociedade dos três indivíduos e que ele receberia o valor de R$ 90 mil.

Outros depoimentos

Como revelado com exclusividade pelo Agora na edição de ontem, em uma ligação telefônica com uma das vítimas, o pastor diz: “Que pena que você não teme pela sua vida e da sua família”. Ele também afirma que, em breve, ela receberia a visita de “Viana”. Por não conhecer essa pessoa, a vítima acredita que o nome pode se referir a um “capanga” de Jesiel.

Outra pessoa que também caiu na armadilha é de São Paulo. Ela contou ao Agora, na edição de quarta-feira, que comprou três filais da empresa do pastor pelo montante de R$ 150 mil. Mesmo após alugar imóveis e contratar funcionários, aumentando o gasto para R$ 200 mil, o negócio não foi concretizado. Apenas após um conhecido divinopolitano o informar que Jesiel já havia aplicado outros golpes dessa natureza na cidade, ele compreendeu que tudo não passava de uma armação.

Empresa

A empresa da qual era dono, sob o nome fantasia de Multare, divulgava a informação de que tinha 11 unidades. No entanto, as investigações apontam a existência de apenas três, sendo uma em Divinópolis.

Posicionamento

O Agora tentou contato com o advogado de Jesiel, mas, até o fechamento desta página, por volta das 18h, não obteve respostas.

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