Fatalidade

Parece-nos uma fatalidade perante a história, pois os meses de abril e agosto no Brasil nos trazem trágicas lembranças de conturbações políticas. Recuemos a 1792, 18 de abril. Marcado para 8 hs o julgamento final, pelo Tribunal de Alçada, instituído por D. Maria I, (a Louca), dos implicados do levante de Minas Gerais. São chamados, para conhecerem  sentença, os padres Melo, Rolim e José Lopes, condenados à morte, posteriormente comutada, além de dois outros a degredo. No dia seguinte, ainda, sob a presidência do Conde de Resende,  29 compatriotas, entre civis e militares.  As penas variavam, alguns deles sentenciados a açoites públicos, bem ao gosto da senadora Ana Amélia. Desses, somente Joaquim José da Silva Xavier  subiu ao cadafalso, num ato solene para qual toda a Rio de Janeiro foi convidada. Feriou-se, nacionalmente, a data, 21 de Abril, que longe de merecer uma reflexão é aproveitada, tão somente, para lazer. Mesmo por parte de quem se diz defensor do país.

Em 1954, 24 de agosto, G. Vargas deixa a vida para entrar, definitivamente, na história. Sete anos depois renuncia Janio Quadros, opõem-se os ministros militares, em franca desobediência à Constituição,  à posse do vice-pres. João Goulart. Leonel Brizola, governador do Rio G.  do Sul, preparou bem sucedida resistência às pretensões golpistas dos homens de farda e civis. Forma-se a Cadeia da Legalidade e adesão de 200 emissoras de rádio. A população vai às ruas, nas capitais e pequenas cidades, e exige respeito aos preceitos constitucionais. Prenuncia-se a ditadura, que não demoraria.  A percepção popular nos deixa este vaticínio, que colhi de uma manifestação havida em João Pessoa: “Ó ló, coragem e esperança militar”. (Odílio Denys, então ministro da Guerra). Os chefes militares chegaram a determinar o bombardeiro do Palácio Piratini, em P. Alegre, encontrando pronta resposta gaúcha.

Hoje, se assemelha àqueles turbulentos momentos. A segurança, em volta ao STF, quando seus membros julgariam o HC de Luiz Inácio da Silva, encenava uma réplica da Lampadosa. No interior da Côrte, o pelourinho, com algozes de relho, à mão. Ficcionava-se, com sinais de ódio, a imagem do novo  conjurado. A força da Constituição não conseguia deter a corda judicante no pescoço do sentenciado. Ignorava-se o pronunciamento de Brizola, transmitido à Nação, naquela fatídica semana de agosto: “Não pactuaremos com golpes ou violência contra a ordem constitucional”.

No pano de fundo, Joaquim José e Luiz Inácio não vêm ao caso, o temor reside no Tiradentes e Lula, alcunhas que simbolizam o exemplo, coragem e esperança do povo brasileiro.

Jornalista
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