Familiares denunciam possível surto de covid no presídio Floramar

Detentos estariam alojados nas celas sem máscara; secretaria desmente acusações

Bruno Bueno

Não é segredo para ninguém que Divinópolis vive o pior momento da pandemia. Com quase nove mil casos confirmados de covid-19, o município enfrenta uma crise sem precedentes, com leitos superlotados e mortes diárias. 

Não distante desta situação, o presídio Floramar, centro penitenciário que aloja vários apenados da cidade e região, superlotado, também sofre as consequências da pandemia. No começo deste mês, dez presos tiveram casos confirmados. Na ocasião, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), por meio do Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen-MG), afirmou que os detentos entraram em isolamento e os casos foram cessados. Contudo, conforme denúncias feitas por familiares de presidiários ao Agora na tarde de ontem, é possível que exista um novo surto de covid na unidade prisional. 

Contaminação

Segundo os familiares, a contaminação em massa teria iniciado em um dos pavilhões e se alastrado por todo o presídio.

— Começou quando um detento testou positivo no pavilhão 3. Em poucos dias, a ala B, localizada no pavilhão 1, já estava toda contaminada. As celas 4 e 5 da ala A também foram isoladas por conta da contaminação em massa. O pavilhão 1 está em caos total — comenta a esposa de um presidiário, que prefere não se identificar.

A mulher, de 22 anos, também denuncia que os detentos não estão recebendo os cuidados necessários para frear a contaminação.

— Eles não fazem teste de covid, somente quando a pessoa apresenta sintomas. Além disso, os agentes andam sem máscara como se não estivesse acontecendo nada. Não tem álcool em gel e nem máscara para os detentos. Ficam os 23 presos dentro de uma cela sem proteção facial — disse.

Dificuldade

A reportagem também ouviu a esposa de um detento que apresentou suspeita de covid no presídio. Ela comentou sobre a constante luta e as dificuldades que enfrenta para saber o estado de saúde do marido.

— Nos últimos dias tenho lutado para saber o estado de saúde dele. Só depois de muito esforço, descobri que ele estava em isolamento com suspeita de covid, sendo que ele é hipertenso e está com arritmia cardíaca. Meu advogado conseguiu ver ele e descobriu que meu marido estava sem paladar, sem olfato, com dor no corpo e dificuldade para respirar. Porém, quando eu ligo lá pra saber eles me falam que está tudo ótimo — disse.

A mulher ainda relata que os presidiários estão sendo maltratados no local.

— Se alguém tiver uma piora no quadro, o presídio não vai ter condições de fornecer cuidados maiores. Eles estão sendo maltratados, é uma situação insuportável. Cortam a luz, a água e fazem de tudo para prejudicar eles — desabafa.

Sem informações

Os familiares também denunciaram a falta de informações sobre os detentos. Conforme decreto da onda roxa, nenhuma visita presencial pode ser realizada nos centros penitenciários. O presídio Floramar adotou, no ano passado, um sistema de videochamada, porém, segundo as testemunhas, a medida foi interrompida.

— Não podemos visitar, mandar cartas e nem fazer videochamadas. Não querem nos dar informação, só nos contam quando a pessoa já está num estado difícil. Eu quero saber a situação do meu irmão, estou sofrendo com isso diariamente — explica uma mulher, de 64 anos, que tem um filho na penitenciária.

Ainda segundo ela, os familiares são desacatados quando buscam informações de seus parentes.

— Quando ligamos para pedir informações, os agentes penitenciários nos respondem com a maior grosseria. Tratam a gente e nossos familiares como animais. Merecemos respeito, eles também são seres humanos. Já solicitamos ajuda com vereadores e a Prefeitura, mas ninguém nos atendeu — conta.  

Resposta

O Agora questionou a Sejusp e o Depen-MG sobre o possível surto de covid-19 no presídio. A reportagem recebeu a seguinte resposta:

— A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), por meio do Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen-MG), informa, conforme o levantamento das 10h desta segunda-feira (29/3), que não há presos com diagnóstico positivo para a covid-19 no Presídio de Divinópolis I (Floramar) — explicou.

A reportagem também perguntou sobre o contato dos familiares com os detentos.

As unidades prisionais seguem os protocolos previstos para a onda da região na qual estão localizadas, exceto aquelas que são classificadas como portas de entrada. Os familiares também podem ter contato com seus parentes de outras três formas: por meio de cartas, ligações telefônicas ou videoconferências nas unidades em que essa tecnologia já está disponível. Mais de 90% das unidades prisionais realizam visitas familiares por videoconferência — afirmou.

Saúde

O Agora também procurou a Secretaria do Estado de Saúde sobre os procedimentos em um possível surto de covid.

— Os municípios deverão organizar os fluxos de notificação de todos os casos suspeitos e confirmados considerando as unidades prisionais presentes no território. Todo caso de doença pelo coronavírus é de notificação compulsória imediata e deve ser comunicado por profissional de saúde em até 24 horas a partir da ocorrência de casos suspeitos — explica.

 

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