Familiares clamam por notícias dos presos no Floramar

Mães e esposas relataram à reportagem que estão há mais de dois meses sem informações; Estado cita outras formas de contato

Ana Laura Corrêa

 

O relógio marcava quase 1h30 da manhã do domingo, 9, Dia dos Pais, quando o celular da reportagem recebeu uma mensagem. Do outro lado, uma mãe angustiada, sem conseguir dormir, com a falta de notícias do filho. Ele está preso no presídio Floramar, em Divinópolis, onde as visitas estão suspensas desde o fim de março. 

— Eu não estou sabendo como ele está, mas creio que está bem, mesmo sem saber. Tenho que pensar positivo. Ainda assim estou preocupada. Fico tensa, ansiosa. Vou ver se procuro um médico para eu tomar um remédio e dormir, descansar. Uma hora dessas e estou acordada, pensativa — disse ela, em outra mensagem, enviada às 1h57.

O último contato com o filho ocorreu no dia 29 de maio, em uma videochamada, que durou somente dez minutos.

— Entrei no aplicativo e lá apareceu meu amorzinho. Ele falou que está bem, tranquilo, que ficou feliz. Eu também fiquei feliz por vê-lo. Fiquei falando que ele estava lindo, que estava com muita saudade de abraçá-lo. Falei para ele usar a máscara, se proteger, passar álcool em gel. Mas tinha um agente do lado dele, ele não podia falar nada, se tinha alguém contaminado lá dentro, mas a gente sabe que tem, porque não é possível — comentou.

E ela não é a única a encarar essa angústia. O Agora conversou com outras cinco mulheres – com maridos ou filhos presos no Floramar – e que têm as mesmas reclamações. Das seis, cinco fizeram apenas uma videochamada com o familiar, há mais de um mês. Apenas uma conversou com o marido, na semana passada, pela segunda vez desde a interrupção das visitas. A principal queixa das mulheres ouvidas pela reportagem é a falta de contato com o familiar preso. Elas pediram para não serem identificadas.

As videochamadas que fizeram com os presos duraram de dez a 15 minutos, apenas. Para quem está nessa situação, o tempo é pouco.

— Parecem cinco minutos — disse uma das entrevistadas. 

E, mesmo com as videochamadas, há restrições, conforme relatou outra, que disse também que percebeu o marido abatido e mais magro.

— Não tem como conversar direito, porque ficam lá a assistente social e o agente, então, se tiverem que contar alguma coisa que esteja acontecendo de ruim não dá, porque eles ficam oprimidos, não têm liberdade de falar com a gente, nem a gente com eles. E a gente também não pergunta muito para não ficar sem resposta. É difícil conversar direito, eles ficam perto o tempo todo, então falam muito pouco — disse.

Telefone desligado

Na falta das videochamadas, todas as seis entrevistadas relataram que tentaram entrar em contato por telefone com o presídio, sem sucesso. Uma delas contou que tenta todos os dias; outra disse que o problema ocorre há mais de um mês.

— Quando estava funcionando, liguei lá para saber notícias e disseram que não podiam falar nada, a advogada também ligou e disseram a mesma coisa: "Ô, senhora, não podemos passar essa informação"; "Ô, senhora, não sei de nada, não"; "Ô, senhora, liga mais tarde". É a maior brutalidade. Não sei por que tratam a gente tão mal desse jeito — reclamou.

A queixa quanto ao atendimento dispensado aos familiares é reforçada por outra entrevistada.

— Quando o telefone funciona, tratam a gente supermal. Se a gente liga para pedir uma informação, eles já cortam na raiz. Muito complicado mesmo. Não gostam de passar informações necessárias, básicas. Eles não têm respeito com a gente, acham que é demais, que a gente não tem esse direito — ressaltou.

Cartas

Sem as videochamadas e na falta de comunicação por telefone, o que resta são as cartas para manter o contato. Mas a demora na entrega das correspondências tem sido um problema.

— Faz mais de mês que não recebo carta do meu esposo. E ele é acostumado a mandar três, quatro cartas por mês, aí a gente fica preocupada — contou uma das entrevistadas.

Outra disse que o filho de cinco anos escreve cartas e envia desenhos para o pai, mas que não sabe se as correspondências são realmente entregues, somente quando ele responde.

— Eles não passam para a gente o critério que usam, se colocam as cartas deles por semana ou a cada 15 dias, não têm comunicação com a gente — lamentou.

A esposa de um dos presos classificou como uma covardia a falta de entrega das cartas aos detentos, que, assim, estão ainda mais isolados.

— Eles não estão entregando as cartas direito. Meu marido me enviou uma carta dizendo que em julho não recebeu nenhuma carta minha, e eu mando cartas três vezes por semana. Tem vez também que não chegam direito para a gente, e isso é um direito do preso — ressaltou.

Sem as videochamadas, cartas e telefone, a mãe de um dos presos disse que os familiares não sabem de nada que acontece dentro do presídio. Nessa situação, outra entrevistada pediu transparência e humanidade por parte do presídio, "apenas isso".

— O sistema carcerário é, sem dúvida, um sistema no qual existem mistérios, em que a teoria é imensuravelmente linda, mas na prática não funciona. Pela teoria, existem direitos, mas nunca na prática. Acredito nas Apacs, mas nunca no sistema prisional — declarou.

Algumas das esposas e mães ouvidas pelo Agora pedem maior frequência das videochamadas ou o retorno, com cuidados, das visitas presenciais – senão, pelo menos uma previsão, mesmo que seja de dois meses ou somente para o ano que vem.

— Quero saber quando vão liberar as visitas. Lá tinha um galpão para fazer máscaras, mas fecharam e ninguém está fazendo mais. Todo mundo à toa. Tem algo errado acontecendo lá dentro que a gente não sabe. Como vamos saber? Desligam o telefone, as cartas não estou recebendo…

A resposta

O Agora entrou em contato por e-mail com a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). A assessoria de comunicação do órgão informou que ainda não há uma previsão para a retomada das visitas presenciais, mas que disponibiliza o contato por cartas, ligações telefônicas e videoconferência. Além disso, segundo a secretaria, foi autorizado o envio de kits suplementares via Correios, contendo materiais de uso e gosto pessoal, que antes eram entregues presencialmente por familiares.

A Sejusp disse ainda que no presídio acontecem, em média, entre 30 e 40 videoconferências com familiares por semana e que todo detento que possui familiares cadastrados para a realização de videochamadas recebe visitas virtuais, pelo menos, uma vez ao mês. Questionada quanto ao intervalo – que às vezes chega a dois meses conforme relatado à reportagem –, a secretaria apenas afirmou que o sistema de agendamento segue sendo realizado pela Diretoria de Atendimento e Ressocialização para que todos continuem sendo atendidos.

Quanto às cartas, o órgão disse  que os Correios visitam a unidade duas vezes por semana, realizando entregas e recolhendo correspondências. A secretaria justificou a demora na entrega e recebimento explicando que, por motivos de segurança, elas passam por inspeção antes de serem entregues aos detentos. 

— No entanto, essa averiguação costuma levar um dia, entre a chegada na unidade prisional e a entrega ao destinatário. Atrasos podem decorrer, ainda, por possíveis problemas nos serviços dos Correios — informou a Sejusp à reportagem.

O órgão ainda garantiu que os detentos têm recebido atendimento médico, psicológico e psiquiátrico normalmente. 

— Um psiquiatra visita a unidade prisional uma vez por mês, e há atendimento por clínico geral duas vezes por semana. Além disso, a unidade dispõe de uma equipe com cinco psicólogos, que oferece assistência diária aos internos — informou.

A Sejusp ainda disse que, nos casos de internos enfermos que não têm contato com as famílias, a assistente social da unidade informa aos parentes sobre o estado de saúde deles.

A secretaria também confirmou que o telefone da unidade passou por problemas, mas garantiu que foram corrigidos na última sexta-feira, 7, e que, ontem à tarde, o funcionamento da linha estava normal.

Até as 10h de ontem, de acordo com o órgão, seis detentos do Floramar testaram positivo para o novo coronavírus. 

— Eles são acompanhados pelas equipes de saúde das unidades, estão assintomáticos ou com sintomas leves da doença. As alas em que se encontram foram isoladas, desinfectadas e todos servidores e demais detentos do local usam máscaras de forma preventiva — informou. 

A secretaria disse ainda estar trabalhando intensamente e de forma integrada ao Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen-MG) para prevenir e combater a covid-19 no ambiente prisional. 

— As medidas adotadas são discutidas e atualizadas, em duas reuniões diárias, com a presença de diversos órgãos, entre eles Defensoria Pública, Ministério Público e Poder Judiciário, para que servidores e custodiados do sistema prisional se mantenham protegidos da melhor forma possível em tempos de pandemia — afirmou.

De acordo com a Sejusp, todos os servidores são obrigados a circular no interior das unidades utilizando EPIs, e recebem esses materiais sistematicamente. Já os presos utilizam máscaras quando estão com algum sintoma suspeito ou quando pertencem a alas ou pavilhões onde outro detento foi testado positivo para a doença.

A interrupção na produção de máscaras – preocupação levantada por uma das entrevistadas – ocorreu na última semana e, segundo a secretaria, os presos voltaram a confeccionar lençóis, destinados ao sistema carcerário mineiro. Atualmente, 18 detentos estão envolvidos nas atividades.

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