Fake news e violência política

Fake news e violência política 

Laiz Soares

A expressão fake news se tornou popular em todo o mundo para denominar informações falsas que são publicadas, principalmente, em redes sociais. Na história da humanidade, não é de hoje que mentiras são divulgadas como verdades, mas foi com o crescimento das redes sociais esse tipo de publicação tornou-se mais comum e mais danosa para reputações e vidas das pessoas e consequentemente criminosa. As fake news podem ser usadas apenas para criar boatos e reforçar um pensamento, por meio de mentiras e da disseminação de ódio. 

A imprensa internacional começou a usar mais o termo durante a eleição de 2016 nos Estados Unidos, quando ele começa a surgir mais forte no contexto político. Além das fake news serem um grande problema nas eleições, elas viraram um problema na rotina da vida pública, um modus operandi de se fazer política para muitos. Recentemente eu, a vereadora Lohanna e Warlon, presidente do Conselho Municipal de Saúde, fomos alvo de ataques de mentiras na cidade. Muita gente achou que era merecido, inclusive autoridades, e chegaram a banalizar e normalizar o fato, o que mostra o quanto ainda precisamos avançar no nosso nível de civilidade. 

Além das mentiras, eu e Lohanna, por sermos mulheres, sofremos ameaças que chegaram ao absurdo de sugerir que merecíamos o mesmo que fizeram com a vereadora Marielle no Rio: morte. Também recebi mensagens de cunho “sexual” de sujeitos desconhecidos que tiveram acesso ao meu celular, fora outras mensagens misóginas e machistas me taxando de louca e sugerindo um desequilíbrio mental. Ameaças, insultos, atentados, atos de agressão e até assassinatos têm se tornado cada vez mais comuns no país quando o assunto envolve mulheres na política. Segundo dados da ONU Mulheres, 82% das mulheres em espaços políticos já sofreram violência psicológica. Entre janeiro de 2016 e setembro de 2020, foram registrados 327 casos de violência política no Brasil. No que depender de mim, isso precisa parar, e só vai acabar mesmo se alguém tiver coragem de denunciar, reclamar, dar o grito e levantar a voz. Nesse país infelizmente ainda pouco educado e civilizado, respeito e dignidade não vêm de graça, mas são conquistados. 

A violência contra as mulheres na política é simplesmente um reflexo da violência que existe hoje na sociedade contra todas as mulheres. Dados mais atuais mostram que uma mulher é morta a cada 7h no país por crime de feminicídio, crime de ódio motivado pela condição de ser mulher. O Brasil é um dos países que mais mata mulheres no mundo e um dos lugares mais perigosos para se nascer mulher. A discriminação com as mulheres não acontece só na política, acontece no dia a dia de todas nós porque somos vistas de maneira inferiorizada em relação aos homens por parte da sociedade, como se nossa vida, nossa voz e nossas necessidades fossem menos importantes e nosso corpo valesse menos. 

É necessário reconhecer a violência contra as mulheres na política como uma situação real e grave. Não é mimimi nem frescura, muito menos uso errado da pauta de combate à violência contra a mulher ‒ quem diz isso é irresponsável e inconsequente e está compactuando com esse tipo de agressão. Toda essa violência gera inúmeras consequências para a representação política feminina na nossa sociedade, afastando cada vez mais mulheres deste espaço, fragilizando ainda mais a nossa capenga democracia. Já é muito difícil uma mulher querer entrar para a política e, quando entra, é recebida a pedradas, inclusive e infelizmente ainda por outras mulheres, o que mostra que o machismo neste país é tão forte e tão enraizado estruturalmente que encontra em seus defensores até mesmo quem sofre dele de forma tão naturalizada que nem consegue enxergá-lo como um problema. 

Quanto mais mulheres participarem como candidatas, líderes de partido e ocuparem cargos públicos sendo respeitadas nestes ambientes, mais efetiva será a capacidade de resposta da nossa política aos problemas reais da sociedade e mais chances teremos de combater a violência contra as mulheres de forma geral. Isso por uma razão matemática básica: nós, mulheres, somos a maioria da população, mas não estamos representadas em nem a metade dos mandatos de deputadas, senadoras e prefeitas eleitas neste país. Nossa representação não passa de 15%, o que trava nosso desenvolvimento social e econômico e é um problema, sim, pois temos uma política disfuncional que não reflete as necessidades e anseios da maioria! 








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