Exploração do minério insiste em abrir cicatrizes com trajeto de lama

Anna Lúcia Silva

Quem um dia olhou para as montanhas de Minas com a certeza de que a exploração delas em busca de minério significava riqueza, hoje chora sabendo que as mesmas minas que o Estado carrega em seu nome, representam desespero, destruição e mortes.

O rompimento da barragem da mina do Feijão, em Brumadinho, região Metropolitana de Belo Horizonte, provocou uma enxurrada de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, responsáveis por incontáveis quilômetros de destruição. O que hoje emerge é esperança de quem ainda aguarda por notícias de parentes e amigos desaparecidos.

Assim como Bento Rodrigues em Mariana ganhou destaque no dia 5 de novembro de 2015, Córrego do Feijão também atraiu holofotes no último dia 25. Números estão sendo usados para tentar dimensionar o segundo maior crime humano, social, econômico e ambiental do Brasil.

Com consequências inimagináveis, na sexta-feira, 25, a estrutura da barragem de mina do Feijão – explorada pela Vale – rompeu e interrompeu vidas humanas, animais, aquáticas e devastou vegetações. Brumadinho, antes conhecida como a cidade do Inhotim, museu que impressiona, hoje é cenário de destruição.

Nessa perspectiva autoridades querem explicar fatos, mas o que cabe é implicar  reconstrução de sentidos, com a certeza de que por anos os desdobramentos desta tragédia estarão acompanhados de rupturas e cicatrizes abertas em nome da exploração mineral.

O roteiro da lama

A barragem que se rompeu foi construída em 1976, por coincidência, no mesmo ano da barragem de Fundão, que também ceifou vidas, ela foi desativada. Entretanto, por lá permaneceu sem ser drenada, sem ser eliminada.

Com mais de 80 metros de altura ela se localizava acima do refeitório da empresa. O rompimento ocorreu por volta das 12h, momento em que funcionários se encontrariam para o almoço e seguiriam a lida, contudo, ali teve fim todas as vidas.

Neste horário, sem nenhum tipo de alerta sonoro emitido pela sirene, o rio de lama desceu em uma velocidade impressionante, tudo que se localizava à frente da barragem foi arrastado. Os rejeitos engoliram carros, casas, invadiram estradas, rodovias, destruiu parte de um pontilhão e ainda uma pousada de luxo, refúgio para descanso de 30 hóspedes que ali estavam, mas que horas depois virou palco para o cansaço de quem até agora busca por soterrados.

O reservatório estava lotado com 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos, que como apontam ambientalistas, são tóxicos à vida humana e ao meio ambiente. Afinal, trata-se de metais pesados e com fortes efeitos negativos sobre a vegetação, pessoas, peixes.

Efeitos que vão se alargar ao longo de toda extensão do rio Paraopeba, 510 km com boa parte do percurso contaminado.  Somadas as populações das cidades que este rio corta, é mais de um milhão de pessoas que agora vivem em situação de alerta, como os moradores de Juatuba, Pará de Minas e tantos outros municípios. O abastecimento de água nestas regiões não foi interrompido, mas a captação passou a ser feita por represas.

Trajeto da lama

No trajeto da lama, corpos foram encontrados e alguns estavam em dois ônibus retorcidos em meio à ela. Nos trabalhos atuam bombeiros militares de Belo Horizonte, Região Metropolitana, de várias cidades mineiras, Rio de Janeiro, São Paulo e a partir de agora conta também, com ajuda humanitária internacional.

Mais de 130 militares de Israel desembarcaram no domingo, 27, na Capital Mineira e seguiram para Brumadinho. Junto eles trouxeram para o Brasil cerca de 16 toneladas de equipamentos modernos, entre eles, sonares, capazes de detectar sinais de calor, vozes e ecos em longas distâncias e profundidades.

Contudo, eles não têm consigo apenas ferramentas modernas, com eles também está a esperança de centenas de familiares e amigos de desaparecidos, como no caso de Willian Martins, que ainda aguarda notícias da irmã, Camila Aparecida da Fonseca Silva.

A adolescente de 16 anos trabalhava como menor aprendiz na pousada Nova Estância há oito dias. As buscas por informações de toda família continuam até o presente momento. Não há nenhuma informação sobre a jovem.

— Moro há 14 anos em Brumadinho e jamais me imaginei passar por essa tragédia. Neste momento vivo numa extrema angústia e indignação pela falta de informações. Esse sentimento toma conta não só de mim que estou com uma irmã desaparecida, mas de todos que aqui estão presentes. Por mais que a fé seja grande e o amparo voluntário se faça presente, o que mais buscamos são informações de nossos entes queridos. Situação que não aconteceu até o momento, já que não há nenhum representante legal da empresa para passar informações reais e precisas  a nós. Estamos esperançosos com as tecnologias trazidas de Israel. Com certeza é mais uma fonte de esperança —, relatou Willian.

Desde a madrugada de sábado, 26, autoridades  disponibilizam listas de desaparecidos, resgatados, sem contato e óbitos na estação do Conhecimento, um local que pertence à própria Vale e fica às margens da MG-040, ao lado da Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Desabrigados, parentes e voluntários estão reunidos neste local desde a noite de sexta, quando a tragédia ocorreu.

Entretanto, sobre a atualização das listas, parentes e amigos de desaparecidos se queixam constantemente da falta de organização, já que nomes como o da irmã de Willian não constam em nenhuma delas.

Corrida pela vida

Maria Aparecida dos Santos, operadora de máquinas e José Maria Medeiros, auxiliar de serviços gerais, fizeram parte de uma cena quase inacreditável, não fosse a tragédia que ela estampa. Como de costume dona Maria foi até sua casa esquentar o almoço e lá se encontrou com Ana Clara, filha do casal, antes mesmo ligar o fogão ouviu um estrondo que indicavam o rompimento da barragem, algo que já era temido desde que o fato ocorreu em Mariana.

— Isso é uma coisa que eu não imaginava nunca ter que passar. Tem pouco tempo que Mariana viveu essa tragédia e não serviu de lição para os coronéis da mineração. Antes de esquentar a comida ouvi o barulho e quando olhei para trás vi o  pontilhão estalar e ser carregado pele barro. Gritei minha filha, agarrei no braço dela, mandei ela correr muito e juntas fomos até a estrada na parte mais alta, quando olhei para trás a lama estava perto de nós, não nos atingiu, mas arrastou tudo, a fazenda que eu trabalhava, minha casa. O que eu tinha ficou debaixo da lama —, lembrou.

O marido também estava no trabalho e conseguiu se salvar. Quando ele percebeu que estava às margens da lama ainda conseguiu socorrer outras pessoas. Sujos com os rejeitos eles foram encaminhados para a estação do Conhecimento, onde aguardaram por horas a realocação, prometida pela Vale. Por volta das 2h de sábado eles receberam informações de que seriam encaminhados para um hotel. Agora, eles aguardam posicionamento da empresa, como centenas de famílias devastadas pela dor, tristeza, angústia e indignação.

Eles querem respostas para dúvidas como: por que a sirene não tocou? Por que o reservatório ainda estava ali, se ele foi desativado? Ou ainda, por que há um refeitório aos pés de uma represa de rejeitos? Porque o ocorrido em Mariana não serviu de lição para uma mineração mais sustentável? E por fim, por que o projeto, que tramitava em assembleia “Mar de lama nunca mais”, não seguiu à frente? São Inúmeras perguntas cuja as respostas estão silenciadas.

Aos olhos da presidência da Vale tudo estava em ordem. Em coletiva restrita, o presidente Fabio Schvartsman disse que, segundo um laudo externo feito por uma empresa alemã, no último dia 10 ocorreu a última leitura dos monitores e estava tudo em ordem. Ele ainda destacou que em 26 de setembro, recebeu um relatório que atestava perfeita estabilidade do sistema.

Os atestados claramente não eram reflexo da realidade e evidenciam que enquanto houver busca de lucro pela exploração, a sociedade se perderá em meio ao prejuízo com perdas de vidas humanas.

População em alerta

Os alertas não cessaram, e no domingo sirenes e um alto-falante acordaram quem teve o privilégio de um pouco dormir. Às 5h30 uma voz ecoou pela cidade de quase 40 mil habitantes. Aquela voz fez vir à tona o desespero e a dor causada pelo medo. O anúncio de evacuação se deu pelo risco da barragem B6 também se romper.

— Estava em casa. Apesar de morar na parte baixa da cidade pensávamos que não haveria mais riscos e conseguimos dormir um pouco depois de muito tempo trabalhando e auxiliando a quem precisava. A sirene tocou e saímos deixando tudo para trás, eu meus pais e meus três irmãos. Não cabia ali preocupação com nada para levar, se não a necessidade de nos salvar —, relatou o morador, Ígaro Trigueiro.

O jovem de 27 anos ainda teve a preocupação de bater nas casas vizinhas e alertar moradores que ainda dormiam. Todos saíram com a roupa do corpo, obedecendo ao alerta que se estendeu até às 15h, quando a evacuação foi suspensa e os riscos minimizados, como naquele momento informou o corpo de bombeiros.

Militares drenaram a barragem e pouco a pouco a população que estava orientada a subir para os locais mais altos de Brumadinho, foi tranquilizada e, assim como Ígaro e sua família, eles também retornaram para suas casas na rua República da Bolívia, bairro São Francisco e tantos outros endereços listados como áreas de risco.

A lama segue alterando ecossistemas, desmatando o meio ambiente, matando peixes, assustando populações inteiras incluindo aldeias indígenas como a tribo dos Pataxós. Eles que têm como bandeira a preservação daquilo que há de mais importante para a vida humana: o meio ambiente, hoje se consternam ao ver a aquarela de ganância que pinta o Paraopeba de marrom escuro.

Caso não haja nenhuma providência essa mesma cor pode pintar o São Francisco, o maior e mais genuíno rio brasileiro, afinal o Paraopeba é um dos seus principais afluentes.

Por fim, os números que quantificam o desastre da barragem de mina do Feijão não qualificam o desastre humano que se estenderá por longos anos. Hoje e sempre, haverá a certeza de que não se trata de um acidente e sim de um crime. Um crime que tem como protagonista os rejeitos de minério de ferro que levaram não só carros, casas, pousada, maquinários, levaram vidas, sonhos, levaram sentidos.

 

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