EUA têm cardeal negro

Raimundo Bechelaine

Em outubro passado, no último domingo do mês, o papa Francisco anunciou que o Colégio Cardinalício terá treze novos membros, de vários países. O Brasil não foi contemplado, desta vez. O acontecimento tem importância especial, porque é o colégio dos cardeais que elege o sucessor do papa, quando este morre ou renuncia. Além disso, embora teoricamente qualquer homem católico possa ser eleito papa, na prática elege-se um dos cardeais.

Entre outros aspectos, despertou atenções o fato de um dos treze ser o arcebispo de Washington. Assim sendo, os Estados Unidos passam a ter seu primeiro cardeal negro e justamente na capital do país. Existem já vários cardeais negros na Igreja. O primeiro foi designado em 1960, pelo papa João XXIII. Foi o tanzaniano Monsenhor Rugambwa. Porém, nos Estados Unidos, dom Wilton Gregory é o primeiro.

A novidade reveste-se também de inegáveis significações políticas, além das especificamente eclesiásticas. Porque o país vive momentos de intensa crise social, econômica e política. A pobreza e o racismo geram e acirram várias formas de segregação e exclusão. A radicalização ideológica perpassa toda a nação. O racismo, que ali sempre foi visível, vem provocando agressões e mortes, conflitos e manifestações, nas grandes cidades. Foi neste contexto de uma sociedade francamente dividida que se realizaram as recentes eleições presidenciais.

Assim, portanto, a ascensão de dom Wilton ao cardinalato traz um significado bem claro. Ele se torna uma voz especialmente autorizada, no quadro das grandes lideranças, tanto negras como  brancas, de todo o país. Mas não só isso. Ele terá uma posição mais destacada no conjunto da Conferência Nacional dos Bispos. Mais ainda: um homem negro na cátedra cardinalícia da capital passa a ser, naturalmente, um fortalecido interlocutor junto ao próprio governo que acaba de ser eleito. 

Todavia, além e acima de tudo isso, o papa Francisco envia à Igreja e ao mundo inteiro um sinal evangélico. O Criador de todos os homens, mulheres e raças nos fez iguais em valor e dignidade. Esta igualdade não pode ser apenas retórica. Deve ser concretizada sempre mais na realidade social, econômica, religiosa, cultural e política de todos os povos, continentes e nações. jorababech@gmail.com






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