Eu odiarei meu ex eternamente

Fernanda Vargas

É comum, após uma separação conjugal, um momento inicial de paz e serenidade. Tudo parece tranquilo até que uma terceira pessoa aparece.

No momento em que o ex-companheiro inicia um novo relacionamento, aquele que estava inconformado com a separação ou, talvez, até mesmo que tenha tomado a iniciativa de separar-se, dificilmente se encontrará preparado emocionalmente para ver seu lugar ocupado tão facilmente.

A terceira pessoa pode ser mais velha ou mais jovem, nada importará a não ser uma briga de culpados. Como diz a música de Gonzaguinha, “Grito de Alerta”: “São tantas coisinhas miúdas, roendo, comendo, amassando aos poucos com o nosso ideal. São frases perdidas num mundo de gritos e gestos, num jogo de culpa que faz tanto mal. Não quero a razão pois eu sei o quanto estou errada. O quanto já fiz destruir. Só sinto no ar o momento em que o copo está cheio e que já não dá mais pra engolir”.

Com a chegada de uma terceira pessoa, ou seja, com o novo relacionamento do ex-companheiro, dá-se início a um ciclo vicioso, no qual a ira passa a ser o centro da vida de quem se sente trocado por outro. E, nesse momento de raiva e vontade de vingança, a razão não consegue ter seu lugar. Pois ninguém é trocado por ninguém; um casamento ou namoro não é desfeito porque outra pessoa apareceu. Na verdade, o relacionamento, geralmente, já se encontrava desgastado.

Já presenciei muitos reencontros de casais que se separaram e que, em seguida, um deles veio a se relacionar com outra pessoa. O mundo parecia ter acabado com um jogo desgastante de culpados, mas, após um certo tempo, esse antigo casal se reencontra e volta a se apaixonar um pelo outro. Isso quer dizer que não existe uma mágica, que, caso a terceira pessoa venha a desaparecer, tudo voltará a ser como antes. Já não existe mais aquele casal. O tempo e as circunstâncias mudaram. E essa terceira pessoa, por piores que sejam seus defeitos, não pode levar a culpa por tudo.
O problema é incutir isso na mente de uma pessoa que acabou de ter um relacionamento rompido. Inicialmente, essa ira, em pequena quantidade, é considerada normal e previsível. Mas, quando os meses se passam e começam a passar anos da separação e essa raiva ainda continua, essa pessoa se torna neurótica e doentia. Ela simplesmente para sua vida e não consegue fazer nada além de sentir verdadeiro ódio pela outra pessoa. A qualidade de vida cai muito, não apenas de quem nutre ódio pelo seu ex-companheiro, mas também dos filhos, enteados, parentes e amigos próximos.

É natural os amigos do antigo casal se distanciarem, pois muitos deles passam a ficar constrangidos e com receios de ficarem ao lado do amigo ou amiga que se separou e que se encontra no novo relacionamento. Acontece, com frequência, de a pessoa que se sentiu traída não aceitar a presença do novo parceiro do seu ex na casa dos amigos e parentes.

Os filhos tornam-se doentes emocionalmente e perdem a coragem de dizer o que sentem com o novo relacionamento do pai ou da mãe. A maioria dos filhos de casais dos quais um dos pais está acometido de tamanha ira prefere, por medo, dizer que não quer ver o pai ou que não gosta mais dele, como forma de agradar o pai ou mãe “abandonado”.

Na verdade, não existe abandono, pois somos seres humanos inteligentes e aptos a escolhermos o que queremos para nós e com quem queremos ficar e estarmos juntos em cada época de nossas vidas. Isso não quer dizer que muitos relacionamentos serão eternos até a morte, apenas significa que, se nem a vida é eterna, por que relacionamentos deveriam ser? Do contrário, iniciar um relacionamento seria desaconselhável, pois você teria a obrigação de ficar com determinada pessoa a vida toda, mesmo que isso significasse ser um casal infeliz.

Esse costume religioso de ficarmos juntos até que a morte nos separe deve ser analisado sob novo ângulo, pois antigamente as mulheres tinham dez filhos ou mais e muitas eram financeiramente dependentes de seus maridos. A religião exercia um grande poder sobre as pessoas. Além de que não existia, até 1977, a Lei do Divórcio.

Os tempos mudaram e as pessoas precisam aprender a acompanhar essa mudança ao se depararem com a própria separação, com separações em família ou de casais amigos. É preciso aprender que separações acontecem e não fazer disso motivo de ódio e vingança eternas, nem é preciso romper amizades de décadas.
Ira é sinônimo de ódio, rancor, raiva, sentimento de profunda inimizade, paixão que conduz ao mal que se faz ou se deseja a outrem, rancor violento e duradouro. Dentre os sete pecados capitais, a ira é o que mais prejudica a todos. Pois a preguiça vitimará apenas o preguiçoso ou algum parente que o sustentará; a luxúria, a avareza, a gula e o orgulho vão prejudicar apenas a pessoa que comete um destes pecados; já a inveja prejudica a muitos e também adoece não somente o invejoso como o invejado. Mas a ira consegue prejudicar muitas vidas. 

Nutrir raiva pelo ex-companheiro trata-se de uma atitude doentia, impensada e que futuramente vai lhe trazer problemas, pois quem semeia vento colhe furacões. Sentir ódio por alguém somente fará com que você e todos que te amam adoeçam. Não existe comprovação no mundo de que o seu ódio atinge a outra pessoa. Tem pessoas que nem sequer sabem que são odiadas ou, quando sabem, simplesmente não se importam.

A raiva não trará a pessoa de volta, apenas restarão pessoas feridas. 

"Viver para odiar uma pessoa é o mesmo que passar uma vida inteira dedicado a ela" Guimarães Rosa

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